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O CAPITÃO-MOR DOMINGOS JOSÉ PIMENTEL BARBOSA

Deixemos Gastão Salazar falar: “Naqueles dias, procedente de São João Del Rei, onde tinha parentes, arribou ao Arraial de São Luiz e Santa Ana das Minas do Paracatu, lá vivendo por dilatados anos, o lusíada Domingos José Pimentel Barbosa”. (1)
“Exercendo ali decisiva influência, prestou ele relevantes serviços à comunidade social, no desempenho dos ofícios da república.”
“Com destaque, seu nome sempre figurou em todos os atos públicos, antes e depois da instalação da Vila de Paracatu do
Príncipe”. (2)
A verdade é que não sabemos a data exata em que ele “arribou” em Paracatu, vindo da Vila de São Miguel do Prado, Concelho de Vila Verde, distrito de Braga, norte de Portugal, região do Minho. Amealhou grande fortuna já no século XVIII, como podemos constatar através de um recibo de resgate de uma barra de ouro quintado, emitido pela Intendência do ouro de Sabará em 23 de março de 1791, assim descrito: “Apresentou nesta Intendência, Domingos José Pimentel uma guia passada na Intendência Comissária de Paracatu aos nove dias do mês de fevereiro do presente ano. Setecentos e trinta e oito oitavas de ouro”. Barra de ouro que equivalia aproximadamente a duas mil e seiscentos gramas de ouro puro, uma pequena fortuna para a época, seguramente adicionada ao seu patrimônio.
Em 1798, solicitou carta patente de Capitão de Infantaria do 4º Regimento de Milícias do Continente de Paracatu, que lhe foi concedido em 03 de janeiro de 1799, pelo Governador Bernardo José de Lorena, tomando posse em 28 de janeiro do mesmo ano. Essa patente foi confirmada em 19 de novembro de 1799 pelo Conselho Ultramarino. (3) Quando da instalação da Vila de Paracatu do Príncipe, o encontraremos participando dos atos políticos e dos festejos relativos aos acontecimentos históricos para a comunidade local. Foi vereador na década de 1810. Em 13 de novembro de 1813, foi-lhe concedida pelo conde de Palma, carta patente de Capitão-mor de Ordenanças da Vila de Paracatu, o que foi confirmado por alvará de 18 de fevereiro de 1814, assinado por Dom João VI. (4) NOTA: “O Capitão-mor de Ordenanças tinha como funções principais, cuidar da economia dos Distritos a ele subordinados e só tinha jurisdição sobre os civis. Era auxiliar da justiça e a ela subordinado. Também era o encarregado de organizar as solenidades oficiais e festas públicas, uma espécie de “mestre de cerimônias” do lugar em que vivia”. O Capitão-mor Domingos Pimentel Barbosa foi um homem respeitado e hospitaleiro, como podemos deduzir do relato do naturalista austríaco Joham Emmanuel Pohl, em seu livro Viagem no interior do Brasil, quando de sua passagem pela Vila de Paracatu em 1819: “Pela tarde regressou o Capitão-mor de suas plantações, e deu-me cordiais boas vindas, e disse que considerasse como sendo minha a sua casa”. “A nossa estada em Paracatu dilatou-se por nove dias e depois de despedir-me cordialmente e gratamente do honrado Capitão-mor, pus-me a caminho no dia 10 de dezembro. Aquele distinto homem deu-nos ainda farinha, pão e doces de frutas para o caminho, e apresentou-nos os melhores votos de felicidade.”“ Muito louvo a cortesia dos habitantes de Paracatu. Vai ao ponto de que, por exemplo, não passam diante da casa do Capitão-mor sem logo de longe tirarem o chapéu, como na Europa se costuma fazer diante das igrejas”. Além do posto de capitão-mor, ele desempenhou as funções de juiz ordinário, juiz de paz e já muito idoso em 1843, desempenhava as funções de juiz municipal e de órfãos. Foi também Ouvidor interino da comarca, e em 1824, ocupando esse cargo, presidiu as solenidades de juramento à primeira Constituição do Império do Brasil. Era Cavaleiro da Ordem de Cristo.
Segundo Gastão Salazar, ele residia na antiga Rua das Flores, próximo à igreja do Amparo, em bela casa de sobrado, “a mais bonita de Paracatu”, segundo Afonso Arinos, construções hoje infelizmente demolidas.
Em tempos do Arraial de São Luiz e Santana de Paracatu, quatro famílias se uniram por casamentos, e tiveram papel preponderante na vida política, social e econômica do lugar até meados do século XIX. Foram elas: Pimentel Barbosa, Soares de Souza, Moura Portela e Roquete Franco. A família Pimentel Barbosa já é sobejamente conhecida. Os Soares de Souza, pelo Guarda-mor Francisco Manuel S. de Souza, atravessaram as fronteiras de Paracatu, por seus filhos, o médico José Antônio S. de Souza, estabelecido no Maranhão e Bernardo Belisário Soares de Souza, Desembargador e deputado geral pela Província de RJ entre 1830 e 1860 e o neto Paulino José Soares de Souza, o Visconde do Uruguai, e em Paracatu, o polêmico juiz Dr. Teodósio Manoel Soares de Sousa. Dos Moura Portela, podemos citar o famoso latinista padre Moura. Quanto aos Roquete Franco, que perduram em Paracatu até os dias atuais, podemos citar o notável brasileiro, Dr. Edgar Roquete Pinto, médico, antropólogo e introdutor do rádio no Brasil.
O Capitão-mor Domingos Pimentel Barbosa, é tronco das principais famílias de Paracatu, tais como Pimentel Barbosa, Pimentel de Ulhoa, Melo Franco, Roquete, Botelho, Loureiro, só para citar apenas algumas. Com Mariana de Moura Portela teve os filhos: Joaquim Pimentel Barbosa que casou três vezes; Maria Pimentel Barbosa que casou com João Batista Roquete Franco; Margarida Pimentel Barbosa que se casou com Francisco Manoel Soares de Sousa; Ana Pimentel Barbosa casada com Antônio Constantino Lopes de Ulhoa e o padre Domingos José Pimentel Barbosa Júnior.
Permaneceu no posto de capitão-mor, que era vitalício, até sua morte em idade provecta, ocorrida em 1844*.
*Nota: em um documento de Aplicação Sacerdotal, de 1805, ele foi arrolado como testemunha do habilitando, onde declara sua naturalidade, e diz ter 40 anos, pouco mais ou menos. podemos deduzir que ele nasceu por volta de 1765.

(1) – Na década de 1770;
(2) – Gastão Salazar, Folhas Antigas, RJ, 1970;
(3) – Carta patente - cópia do original que se encontra no Arquivo Público Mineiro;
(4) – Cópia em nosso poder do original que se encontra no Arquivo Nacional.

Texto elaborado por José Aluísio Botelho.

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