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BOTELHOS DE PARACATU - ORIGEM AÇORIANA

Por José Aluísio Botelho 
1 – INTRODUÇÃO
Nesse artigo tentaremos de forma resumida, historiar a origem açoriana da família SILVA BOTELHO de Paracatu, Minas Gerais, desde o descobrimento do arquipélago pelos portugueses por volta de 1420. Nele podemos depreender, por exemplo, que as famílias entrelaçadas por casamentos, pertenciam à classe média dominante na ilha específica, alguns com títulos da pequena nobreza portuguesa. Pela própria característica da ilha Graciosa, local de origem da família, podemos salientar que não havia condições de enriquecimento desmesurado, e, portanto, era raro encontrar famílias poderosas sob o ponto de vista econômico no lugar. Ao mesmo tempo, a falta de perspectiva quanto ao futuro dessas famílias, aliado ao aumento demográfico e a fenômenos climáticos e vulcânicos recorrentes, bem como a cíclica escassez de alimentos culminou no grande movimento migratório promovido pelo governo português para o Brasil, iniciado em 1748. Sob ponto de vista da Genealogia, a grande maioria das pessoas que migraram para o Brasil, com vínculos de parentesco com os Botelhos, se fixou no Sul do Brasil, onde deixaram enorme descendência, que podemos denominar de parentela sulista. Outrossim, podemos afirmar que desde as ilhas, não há qualquer vinculo de parentesco entre os Botelhos de Paracatu e os que se fixaram em São Paulo, de origem na nobreza portuguesa, oriundos da Ilha de São Miguel, como alguns descendentes acreditavam.


2– O ARQUIPÉLAGO DOS AÇORES

Portugal está dividido geográfica e administrativamente em parte insular (arquipélago da Madeira e dos Açores no Oceano Atlântico) e parte Continental, situada em território europeu. O arquipélago dos Açores localiza-se no Atlântico Norte, estando dividido em três grupos de ilhas: grupo Oriental constituído por Santa Maria e São Miguel; grupo Central, constituído pelas Ilhas Terceira, São Jorge, Pico, Faial e Graciosa; e o grupo Ocidental, formado pelas Ilhas Flores e Corvo.Atualmente, o território possui uma área aproximada de 2.233km². A Ilha de São Miguel é a de maior área, com 750km², seguida da Terceira, com 500km²; a menor é a Ilha do Corvo, com 15km².
Os Açores estão distantes 800 milhas da costa de Portugal, estando sob o domínio português desde 1432. O arquipélago foi historicamente povoado por descendentes de portugueses e belgas (Flandres e Flamengos), além de franceses, italianos, ingleses e espanhóis, estes em menor escala. A situação geográfica do arquipélago, isolado no Oceano Atlântico e com fenômenos vulcânicos e climáticos, fez com que os ilhéus estivessem sempre voltados para o mar; ao mesmo tempo em que impôs a solidão, despertou a criatividade para a sobrevivência nas limitações do espaço através da atividade cultural. O oceano acabou sendo a fronteira da expansão agrícola no além- mar, que instigou a expectativa de dias melhores e de fartura de terras que o homem tornaria produtivas pelo trabalho. Tudo isso só foi possível com a superpopulação da ilhas, o que tornaria precárias a luta por melhores condições de vida, ensejando o processo migratório em massa para o Brasil colônia, estimulado pelo Governo Português, temeroso de perder o Sul do Brasil para o Império Espanhol, que de fato acabou invadindo as colônias do sul em 1763. Dentre as ilhas açorianas, a que nos interessa nesse artigo é a Ilha Graciosa, berço dos Botelhos de Paracatu.

3– A ILHA GRACIOSA

A ilha Graciosa está situada no extremo noroeste do Grupo Central do arquipélago dos Açores. Tem uma área de 62km², e é a menos montanhosa das ilhas.
A história da Graciosa começa com seu povoamento, que se iniciou na década de 1440, capitaneada por Duarte Barreto. Os genealogistas dão como chegado à ilha, cerca de 1465, o mais conhecido dos primeiros povoadores da época, Vasco Gil Sodré. Posteriormente, a incipiente capitania foi passada a Pedro Correa da Cunha a partir de 1475, quando foram distribuídas as terras em vastas sesmarias e constituídas as formas de governo e administração. O último Capitão donatário foi Duarte Correa da Cunha, que faleceu em 1507. Iniciado o povoamento e estruturadas as primeiras povoações, como vila da Praia e a Vila de Santa Cruz da Graciosa, ocorre um rápido aumento da população, que atingiu seu apogeu a partir da primeira metade de século XVI, com gentes vindas do norte e centro de Portugal, ilha da Madeira, do estrangeiro, notadamente de belgas, e em menor número, de franceses e italianos. Ao longo do século XVI, consolidou-se a colonização da ilha, com a formação de uma elite dirigente, que governavam as câmaras, as misericórdias e as milícias. A agricultura de cereais e de vinhos, bem como a criação de gado, foi a base de subsistência da gente da ilha e dos Açores. Pois bem, a população da ilha foi aumentando gradativamente e ao final do século XVII, já era densamente povoada, causando dificuldades para a sobrevivência das famílias graciosenses, o que tornaria uma das causas precursoras da grande imigração para o Brasil, notadamente para a região sul, a partir de 1752. Os principais núcleos habitacionais da ilha são a Vila de Santa Cruz da Graciosa, sede do Conselho, Vila da Praia, Luz e Guadalupe.


4– AS FAMÍLIAS POVOADORAS E SEUS ENTRONCAMENTOS


É evidente que as famílias dos capitães do donatário, Duarte Barreto, Vasco Gil Sodré, Pedro Corrêa da Cunha, e Duarte Correa da Cunha se tornaram das principais da Ilha, aliadas as de pequena nobreza ligadas à Ilha Terceira, mas a grande maioria dos povoadores era gente do povo em busca de melhores condições de vida. As famílias mais importantes que diretamente se entrelaçaram na cadeia de descendência da família Botelho de Paracatu foram: Lobão Botelho, naturais de Horta, no Além Douro; Sodré; Gil da Silveira; Melo; Velho de Azevedo; Machado, e os Viegas de Ataíde, possuidores de linhagem na pequena nobreza, todas oriundas do continente Português; Vaz, Bettencourt (que de França passaram à Castela, à Madeira e aos Açores), Furtado de Mendonça e Ornelas, que vieram da ilha da Madeira. Não poderíamos deixar de citar os Espínola, italianos, e os Ávila, espanhóis, também entroncados na cadeia genealógica de descendência. Membros dessas famílias faziam parte dos terratenentes, formando uma espécie de elite dominante na pequena ilha, ocupando os cargos públicos de relevância nas principais vilas então existentes.
Não se sabe ao certo a origem da família Lobão Botelho. Parece ter se iniciado com o casamento de um Luís Lobão com Luísa Botelho, que segundo Felgueras Gayo (§32, Nº12) seria descendente de Dom Paio Mogudo de Sandim, o genearca do apelido Botelho em Portugal. Nas primeiras décadas do século XVI, filhos e/ou netos desse casal já haviam se fixado na Graciosa, usando o apelido composto, como se documentaram nos primeiros registros paroquiais da ilha. Do casal acima poderia ter sido filho ou neto, Antônio Lobão Botelho, escrivão de órfãos na ilha Graciosa antes de 1583, que casou com Ana da Cunha. Deste casal houve uma filha, Maria Gonçalves Sodré, que ao casar com seu primo Braz Fernandes Lobão, deram início à família. Dentre os filhos, houve outro Braz Fernandes Lobão (Botelho), casado com Águeda Vaz, “nobres e ricos” moradores na Portela, localidade existente na Graciosa.
O primeiro entroncamento familiar importante se deu com o casamento do neto, João Lobão Botelho, com Catarina de Mendonça Ornelas (família Furtado de Mendonça, Ilha da Madeira). Filho desse casal, o bisneto Manuel de Mendonça Pereira (1640 - 1705), que adotou o apelido materno, foi Fidalgo de Cota de Armas, com carta de brasão passada em 1673: escudo esquartelado I e IV Botelho, II e III Mendonça, por diferença um trifólio verde.
                                                      
Óbito - Dom Manoel de Mendonça Pereira

Casou em 1681, com Maria das Neves Gil da Silveira Bracamonte (1665 - 1736), do ramo dos Gil da Silveira e Viegas de Ataíde, entroncados com o casamento entre Leonor Gil da Silveira e Pedro Viegas de Ataíde, Fidalgo da Casa Real e de Cotas de Armas por carta de brasão de 1542, filho de Rui Viegas de Ataíde.
                                                
Casamento - Manoel de Mendonça Pereira


Deixando descendência numerosa, este casal, dentre outros, teve João Lobão Botelho (o segundo do nome), que foi o genearca da família Silva Botelho no Brasil, cuja trajetória se verá adiante.
Descende também do mesmo casal, a família Gil da Silveira, de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, sendo, portanto, aparentados dos Botelhos de Paracatu. (Nota – era muito comum e recorrente a miscelânea de sobrenomes na mesma família: alguns filhos adotavam o apelido paterno, enquanto outros o materno, e algumas vezes de parentes remotos, prática que persistiu até o século XIX).
Pois bem, João Lobão Botelho, que adotou o sobrenome do avô paterno, nasceu em Santa Cruz da Graciosa, por volta de 1685. Casou duas vezes, primeira vez em 1703, com Izabel de Bettencourt, falecida em 1737; posteriormente, e em idade avançada (55 anos), casou segunda vez em 24 de Setembro de 1740, com Francisca Rosa de Bettencourt, de 20 anos, que descendia das famílias Velho de Azevedo, Bettencourt e Ávila, bem como dos Espínola, todas entroncadas entre si. Esse casal, João Lobão Botelho e Francisca Rosa de Bettencourt iriam migrar para o Brasil entre 1748 e 1758, como veremos adiante. Ver imagens abaixo:


                                                           
Batismo - Francisca Rosa de Bettèncourt
                                                      
Casamento de João Lobão Botelho 
 
5– A COLONIZAÇÃO AÇORIANA NO RIO GRANDE DO SUL


O Rio Grande do Sul da primeira metade do século XVIII se restringia a poucos núcleos populacionais, cujo centro estava no Presídio do Rio Grande de São Pedro, centro administrativo e militar da região. Diante da necessidade da ocupação das terras do território e o temor da anexação do Rio Grande pelos espanhóis, os açorianos foram vistos como potenciais desbravadores a povoar a zona em litígio.
O aspecto mais destacado que impulsionou a colonização açoriana no Sul do Brasil,como já relatamos, deveu-se à pressão demográfica e à concentração territorial associado a um fraco crescimento econômico das ilhas, acrescidos em menor escala, dos fenômenos climáticos, vulcânicos e sísmicos recorrentes que assustavam os ilhéus. A partir de 1748, o governo português, iniciou o processo de translado dos emigrantes açorianos, após elaborar um programa de incentivos às famílias que quisessem vir povoar o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e o Paraná. Prometia o governo, lotes de terra, instrumentos agrícolas, e até ajuda de custo em dinheiro, para os casais de imigrantes, sendo que a exigência mais importante por parte do estado seria o limite de idade – 40 anos para o cabeça do casal, o que nem sempre era cumprido. Houve então, um processo contínuo de imigração em massa para o Sul de Brasil que perdurou pelo menos até 1763, ano da invasão espanhola. Fazia parte desta leva de povoadores o casal Capitão João Lobão Botelho e sua mulher Francisca Rosa de Bettencourt. Esses açorianos, com o passar do tempo trocaram a agricultura pela pecuária, mais rentável, surgindo daí as estâncias de criação extensiva nos pampas gaúchos. Contudo, o governo colonial, não cumpriu com as promessas de ajuda aos colonos, os abandonando a própria sorte, o que associado ao conflito com os espanhóis, fez com que muitas dessas famílias deixassem o sul do Brasil, em direção das Minas Gerais em busca de melhores condições de vida na mineração. Novamente, o capitão João Lobão Botelho e sua esposa estavam entre elas.

6– O CASAL NO BRASIL

Não descobrimos a data exata de quando eles emigraram para o Sul do Brasil, provavelmente entre 1748 e 1758, quando batizam o filho José, a 02 de março de 1758, em São Pedro do Rio Grande.


Batismo do filho José 
                                                                           
                                                                  
                                                                                         Batismo da filha
                                   
  Encontramos um documento emanado pela Câmara da Vila de Santa Cruz da Graciosa, datado de 1747, que reza o seguinte:
...”foi mandado vir ante si o livro onde estão alistadas as pessoas que de sua livre vontade querem passar às partes da América pela ordem de sua Majestade, etc.,... com as respectivas nomeações do Capitão e Alferes de Ordenanças da Primeira Companhia de casais, de João Lobão Botelho e de Domingos Gil da Silveira. Mais adiante, diz o documento:... as quais pessoas que temos informado para Capitão e Alferes, são pessoas das principais famílias desta vila.” Esse documento é mais um indício da vinda do casal para o Brasil naquele intervalo de tempo acima descrito. Nota: Domingos Gil da Silveira era sobrinho de João L. Botelho. Mas, devido a entraves burocráticos, as imigrações para o Rio Grande do Sul só seriam incrementadas para valer a partir de 1752, o que nos leva a crer que o casal só tenha chegado a partir deste ano.
No Brasil, as informações documentais sobre os mesmos são esparsas, tanto no RS como em Minas Gerais. Juntamente com o casal acima, também migraram para o Brasil, os pais, Manuel Machado Ribeiro e Tereza de Bettencourt, e as duas irmãs de Francisca Rosa, que inicialmente se fixaram em Santa Catarina. Outros membros dessas famílias, que vieram na leva de povoadores do Sul do Brasil, lá deixaram descendência, como por exemplo, as famílias Gil da Silveira, cujo iniciador foi um sobrinho de João Lobão Botelho, Domingos Gil da Silveira.
Dos Açores, veio com o capitão João Lobão Botelho e sua mulher, a filha Teresa Tomásia de Jesus, nascida em 1750 na Vila de Santa Cruz da Graciosa - ver imagem abaixo:

                                Batismo de Tereza Tomásia


 Em 1763, Teresa é madrinha na Vila de São Pedro do Rio Grande, sendo esta a última referência da família na região sul do Brasil. Em algum momento entre o ano de 1763 e 1768, eles migraram e se fixaram em Minas Gerais, na região do Campo das Vertentes, freguesia de Nossa Senhora de Oliveira (hoje Oliveira), termo da Vila de São José (hoje Tiradentes), Comarca do Rio das Mortes. Não encontramos a presença do Capitão João Lobão Botelho em Minas Gerais, ao contrário de sua mulher que aparece em certidões de batismos como madrinha de alguns netos. Cremos ter ele falecido nesse período, até porque já vivia em idade avançada, e deve ter morrido ainda em Rio Grande ou ao chegar a Minas. Talvez jamais saibamos os motivos da migração da família para Minas, mas, podemos citar alguns como prováveis, tais como, a invasão espanhola, o grande contingente de açorianos na região aurífera, inclusive parentes da Ilha Graciosa, bem como o abandono do governo português em relação aos colonos no Sul, e por fim a maior possibilidade de melhorar de vida com a mineração.
O fato é que a filha mais velha, Teresa Tomásia de Jesus, casa em 1768, na Capela de São Caetano do Paraopeba, filial da Matriz de Queluz (atual Conselheiro Lafaiete), com o Tenente Gregório José da Silva, natural de Prados, Minas Gerais, filho de Antonio da Silva, natural de Campanhã, Porto, e de Josefa Maria, açoriana da Ilha do Faial. Ver imagens abaixo:



                                                Casamento de Gregório José da Silva e Tereza Tomásia de Jesus
                                    
                                                                     Batismo de Gregório José da Silva

 O casal foi morador na Freguesia de Nossa Senhora de Oliveira, onde batizaram os seus dez filhos, no último quartel do século XVIII. Sua irmã Ana Joaquina de Jesus, casa por volta de 1780, com José Pacheco de Carvalho, também filho de açorianos, e por fim, o irmão José Antônio de Souza, casa a primeira vez, em São João Del Rei, em 1779, com Ana Francisca Maciel, natural de Aiuruoca, MG, filha do açoriano Francisco Martins Borralho. É importante frisar, que a quase totalidade dessas famílias iriam mais tarde se fixarem na florescente Vila de São Domingos dos Araxás, rica em pastagens e propícia à criação extensiva de gado, e que se abria como nova fronteira de desenvolvimento agrícola na Capitania de Minas Gerais.

7– O CAPITÃO JOSÉ DA SILVA BOTELHO

Dos dez filhos da açoriana Teresa Tomásia de Jesus Botelho, somente dois deles adotaram por varonia o sobrenome materno: no caso específico, o terceiro filho, batizado em 1775 na freguesia de Nossa Senhora de Oliveira com o nome de José, que na vida adulta passaria a se chamar José da Silva Botelho. Casou ele aos 30 anos de idade, em 1805, com Teodora Jacinta Ribeiro de Moraes e Castro, batizada a 08 de Junho de 1791, na mesma Freguesia de Oliveira, filha de Joaquim Ribeiro de Moraes e Castro e de Ana Jacinta de Moraes. Em 1815, obteve sesmaria de três léguas de comprimento por uma de largura, situada na paragem denominada Fundo da Mandioca, localizada na então florescente Vila de São Domingos dos Araxás, Sertão da Farinha Podre, hoje Alto Paranaíba. Montou fazenda (avaliada em 1832, por 14 contos de Réis), e com a criação e o comércio de gado vacum e cavalar, o capitão José da Silva Botelho enriqueceu se tornando um dos maiores latifundiários da região, e embora continuasse residindo em Oliveira, teve participação decisiva, mesmo à distância, na consolidação política, econômica e social da vila. Em Araxá, o capitão José da Silva Botelho, através de seus filhos, deu início a várias gerações portadoras do sobrenome composto SILVA BOTELHO, que se espalharam pela vizinhança, com ramificação em Paracatu, situada no noroeste de Minas. Não conseguimos descobrir a data de sua morte, porém em 1836 ainda vivia em sua fazenda Cachoeirinha, em Carmo da Mata, termo de Oliveira, aos 61 anos de idade. Dentre os seus dezesseis filhos, o quinto deles, Coronel Fortunato José da Silva Botelho, após a morte do pai, assumiu o comando da família, e junto com irmãos e cunhados, forjou o chamado Grupo da Mandioca, de tendência liberal, que se tornou um verdadeiro clã político local. Homem inquieto e com pretensões políticas fora de sua aldeia, o coronel Fortunato chefiou a revolução liberal de 1842 em Araxá, e mesmo sendo derrotado continuou sendo uma forte liderança política regional, se elegendo diversas vezes para cargos de relevância do lugar. Fundou a primeira Loja Maçônica de Araxá em 1872. Republicano de primeira hora acreditava na luta armada para a derrubada do antigo regime, e chegou a cogitar na criação da República de Araxá, ideal evidentemente não conquistado. É de se estranhar que ele não seja lembrado postumamente, pelo poder público de Araxá. Faleceu em maio de 1890.

8– O RAMO PARACATUENSE

O primogênito dos dezoito filhos do Capitão José da Silva Botelho, chamou-se José Jacinto da Silva Botelho, natural de Oliveira, nascido em 1806, e falecido antes de 1856. Casou em Araxá com Dona Áurea Cândida de Castro, e dentre os filhos do casal, dois deles foram moradores em Paracatu, noroeste de Minas Gerais, onde casaram e criaram filhos. O primeiro a chegar foi o coronel Fortunato Jacinto da Silva Botelho, homônimo de seu tio Fortunato José descrito acima, que lá casou com Dona Cândida Pimentel de Ulhoa, filha do tenente coronel Domingos Pimentel de Ulhoa, chefe político local. O seu irmão mais novo Franklin, foi o segundo a estabelecer na cidade, casando-se com uma neta do dito coronel Domingos Pimentel, Dona Cândida Ulhoa Vilela. Os filhos do coronel Fortunato foram os últimos a usar o sobrenome composto Silva Botelho em Paracatu. Dos seus casamentos originaram sobrenomes tradicionais na cidade e entorno, tais como, os Adjuto Botelho, Lima Botelho, Botelho Brochado, Porto Botelho, Ulhoa Botelho, etc. O Dr. Franklin teve de seu casamento somente um filho varão sem geração, o que levou ao desaparecimento do sobrenome em sua descendência.
O coronel Fortunato Jacinto da Silva Botelho, nascido em Araxá por volta de 1846, tornou-se um dos principais latifundiários da região, possuidor que era de grandes extensões de terras tanto em Paracatu, como também no município goiano de Cristalina. Chefe político na cidade, republicano como seu tio e homônimo de Araxá, foi um dos fundadores do Partido Republicano em Paracatu, logo após a proclamação da República no Brasil. Foi vereador e agente executivo municipal, e um típico representante da aristocracia rural mineira naquela região. Faleceu em 1910.
O engenheiro Franklin José da Silva Botelho, também foi abastado proprietário rural no município. Professor de Agrimensura lecionou na famosa Escola Normal de Paracatu, bem como na escola de Agrimensura, anexa a esse mesmo educandário. Na política, foi deputado estadual mineiro, entre 1899 e 1905. Faleceu em Paracatu em 1918.

9 – CONCLUSÃO

É, mister, pois, afirmarmos que os açorianos João Lobão Botelho e Francisca Rosa de Bettencourt, cuja saga no Brasil em busca de melhores condições de vida, iniciou-se na Vila de São Pedro do Rio Grande, hoje Rio Grande, RS, e posteriormente passou a Minas Gerais onde fincou raízes, foi exitosa. Seus netos, na grande maioria se fixaram na região de Araxá, então uma florescente e próspera zona de criação de gado, e lá forjaram famílias que se tornaram tradicionais em todo o Alto Paranaíba, Triângulo Mineiro e Noroeste de Minas. Dentre elas, podemos citar as famílias José da Silva, Ribeiro da Silva, Afonso de Almeida, Machado de Moraes, Pacheco de Carvalho, Álvares Machado, e por fim os Silva Botelho, de interesse desse artigo. Seriam, pois, dois terceiros netos do casal açoriano, os responsáveis, a partir da década de 1870, pelo tronco paracatuense dos Silva Botelho, como relatamos acima, e que perdura até os dias atuais.


Postado José Aluísio Botelho, no ensejo das comemorações do centenário de falecimento do Coronel Fortunato Jacinto da Silva Botelho e de nascimento do seu neto Caetano (Tatão) Lima Botelho, em cujo sangue, havia muitas gotas de sangue açoriano.

Fontes consultadas:

1 - Genealogias da Ilha Terceira, Jorge Forjaz e Antônio Ornelas Mendes, Dislivro Histórica, Lisboa, 2007;

2 - Memorial Açoriano, Volume XIX, de Luiz Antonio Alves;
3 - Colonização Açoriana no RS (1752 – 63), de Luiz Henrique Torres, 2004;
4 - A epopéia açórico-madeirense, de Walter F. Piazza, editoras Lunardelli/UFSC, 1992;
5 - Arquivo pessoal;
6 - Família tenente Gregório José da Silva – Projeto Compartilhar – http://www.projetocompartilhar.org;

7 - Centro de Conhecimento dos Açores - registros paroquiais da matriz de Santa Cruz da Graciosa;
8 - FamilySearch - registros paroquiais de Conselheiro Lafaiete, MG, e de Rio Grande, RS.







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