Pular para o conteúdo principal

PADRE DOMINGOS SIMÕES DA CUNHA



              INTRODUÇÃO

     BREVES CONSIDERAÇÕES  

Objetivando arrancar do culposo anonimato e esquecimento em que jazem algumas das figuras mais notáveis desta gloriosa e histórica cidade sertaneja, encontramos em publicações de antanho um laborioso trabalho de resgate perpetrado por alguns abnegados intelectuais mineiros, inclusive de Paracatu, capitaneados pelo Dr. José Maria Vaz Pinto Coelho (*). Editor, organizou o livreto “Padre Domingos Simões da Cunha (Trovas Mineiras)”, publicado originalmente em 1863, pela revista “Biblioteca Brasileira”, editada no Rio de Janeiro, de sua propriedade. O padre Manoel Xavier do Valle, parente do editor da revista, foi o elo de ligação com os intelectuais paracatuenses João Jaques Roquete Franco (poeta Janjão), o médico Dr. Joaquim Pedro de Melo, autor da biografia do padre Domingos, o latinista e artista plástico, professor Sancho Porfírio Lopes de Ulhoa, Miguel Joaquim de Sousa Machado, futuro Cônsul Geral do Brasil no Paraguai durante a guerra, e por fim, José de Sousa Guimarães, músico e poeta menor, porém amigo de convivência com o padre escritor. Todos contribuíram para que se resgatasse o pouco do que sobrou da profícua obra do padre, que transitou entre desde a música sacra, passando pelo teatro e a poesia, e que se perdeu em sua quase totalidade. Aliás, foi ele que em 1780, criou uma casa de Ópera na Rua do Ávila no então jovem arraial de São Luiz e Santana das Minas do Paracatu, e que ainda funcionava em 1832 no mesmo lugar, segundo informações por nós compiladas.
A seguir, publicamos, respeitando a grafia original na medida do possível, este notável trabalho de recuperação da memória desse grande vulto paracatuense do passado, que viveu no Brasil colonial sob a égide de um governo absolutista português que a tudo censurava e proibia no campo da criação intelectual, notadamente, aquelas que poderiam ameaçar a estabilidade do regime.
(*) Homem abastado, era descendente do barão de Cocais; intelectual foi escritor e tradutor; deve-se a ele a recuperação de inúmeras obras de escritores provincianos mineiros.                 
     
BIOGRAFIA DO PADRE DOMINGOS SIMÕES DA CUNHA

 AUTOR - DR. JOAQUIM PEDRO DE MELO
(Texto transcrito na grafia original)

Domingos Simões da Cunha nasceu em 1755 (**) , na cidade do Paracatú, então arrayal de S. Luiz e Sant’Anna, Minas do Paracatú, comarca de Sabará, em uma chácara, denominada hoje Bacheiro, e n’essa época, Capitão-mor, distante da povoação cerca de meio quarto de légua, onde tinha lavras de mineração de ouro seu pai o capitão-mor Clemente Simões da Cunha (***).
Desde sua infancia mostrando muita vivacidade e amor aos estudos, seu pai, que era um dos mais poderosos mineiros, procurou satisfazer  a inclinação do esperançoso adolescente.
Para este fim, logo que completou os estudos de primeiras letras, fel-o entrar para a aula de latinidade do professor particular padre-mestre Rebordões, insígne grammatico, que dotou a nascente povoação com mui distinctos discípulos, que se celebrizaram, como nosso padre Simões, o Dr. Carlos Dias de Carvalho Paracatuense, o primeiro filho deste paiz, que se formou em Coimbra, e muitos outros.
Ainda estudante de latim, desenvolveu o padre Domingos extraordinaria vocação para a poesia, compondo varios ensaios, que se perderam, mas que, segundo a opinião de seus contemporaneos, inculcavam raro talento. Tornado perfeito estudante de latim, lingua, que conheceu cabalmente, e não encontrando mais alimento para a sua avidez para aprender, dirigiu-se à Bahia, já então moço, e ahi freguentou varias aulas, completando o curso de humanidades. Então, desejando seu pai que elle se ordenasse, tratou o padre Domingos de coroar a vontade de seu protector; mas, encontrando muitas dificuldades devidas aos preconceitos do tempo pela sua condição, marchou para pernambuco, onde estudou theologia e outras matérias no seminario de Olinda, regressou a seu paiz natal, e nelle viveu sempre geralmente estimado até seu fallecimento, que teve lugar a 19 de setembro de 1824.
Sabia perfeitamente muzica, e até compunha com apurado gosto, deixando disso muitas provas, e sendo sempre o mestre da capella, e o primeiro que organisou aqui(Paracatu), um coro regular de muzica, e que também introduziu os divertimentos theatraes, -Neste sentido existem muitas cançonetas, balladas e cantos poppulares, que o povo ainda repete, compostas por elle e postas em muzica.
Fez para nosso theatro algumas farças e entremêzes, que ainda possuimos alguns, e entre elles o Gil-Braz, muito jocoso e ainda digno de applauso.
Sabia varias linguas, como a latina, italiana, franceza, e tinha, na Bahia, adquirido algumas noções do dialecto indígena. Escreveu varios sermões, que desappareceram, mas nunca pregou-os porque agastou-se com uma admoestação, que lhe fizêra o vigario Dr. Antonio Joaquim Correia de Mello sobre certos assômos liberaes, que transluziam em seus panegyricos. Compôz muitas poesias, de diversos generos, todas ineditas, e hoje quase perdidas; mas seu natural pendor era para a  Satyra, em que primava.
Consta que fizéra um  poemeto, dedicado à D. João VI, e que, mandando-o com outras producções suas ao Rio de Janeiro ao seu conteporaneo Dr. Francisco de Mello Franco, para que fôssem publicadas, e vendo demora  na satisfação de seu desejo, suppôz que fôra isso  menosprezo, chamou-as á si, e consumiu-as, entrando nesse numero a muito notavel Ode à Conceição de Nossa Senhora da qual ainda ouvimos a repetição de trechos, verdadeiramente encantadores e admiraveis.
Do muito que escreveu resta-nos hoje pouco e muito mutilado; porque diz-se que o que elle julgára melhor, fôra o que colleccionára, para remetter ao Rio, e que depois queimou, desde que formou o projecto de não  dar à luz.
O seu estylo na proza era grave, singelo e conciso, mas na poesia modificava-se muito, tornando-se gracioso, familiar e sublime em certas composições. Metrificava com muita facilidade, e era admirado pelas suas insoirações no improviso. Bom grammatico, escrevia com pureza e muita correção, como ainda hoje se vê de varios ecriptos seus, que restam.
O padre Domingos Simões da Cunha era de estatura mediana regular, de contextura muscular, trigueiro, cabellos pretos e crespos, testa grande e oval, olhos vivos,, nariz bem lançado, labios grossos, bocca um pouco rasgada; excellentes dentes, physionomia alegre, um pouco curvado para a frente, e tinha o andar compassado e grave. Era naturalmente affavel, e muito polido e urbano no seu trato social, e muito espirituoso em suas conversação; mas muito independente de genio e orgulhoso. Caridoso e philantropo empregou sempre os bens da fortuna que herdou, como philosopho, com prudente generosidade, desejando só nunca ser pesado à ninguem, como nunca o foi, pois morreu sem nada dever, deixando em dinheiro 12 patacões, que declarou serem sufficientes para seu enterro.
As cazas proprias em que morava na rua das Flôres, seus moveis, livros, e mais objectos de seu uso, legou-os ao padre Francisco Pereira Tavares, seu sobrinho.
Foi sepultado na igreja de Nossa Senhora de Amparo.
(**) É duvidosa a data de seu nascimento. Encontramos um assento de batismo, em que ele é padrinho, juntamente com seu pai, datado de 1758. Certamente ele nasceu  antes de 1755. Veja imagem abaixo:

(***) Capitão mor Clemente Simões da Cunha, português, natural de Viana do Castelo, onde nasceu em 1716.Veio para as Minas do Paracatu, logo após os descobertos de 1744, amealhando considerável fortuna. Nunca casou, mas, com escravas, alforriadas por ele, teve filhos naturais reconhecidos, dentre eles, o padre Domingos, tido com Bernarda do Espírito Santo. Aliás, a tipologia descrita do personagem biografado, mostra ter sido ele, fruto da miscigenação entre o europeu branco e o negro africano.
     
                                  Fac-símile                              
                        
               
     OBRA POÉTICA RESGATADA
                     (grafia original)

                      SONETO
                  
 Aos meus olhos em sonho se apresenta
(Não era espectro, porém gente viva)
Decrépita mulher, que, pensativa,
Aos pés do leito, junto a mim se assenta:
Sórdida, atropelada, macilenta,
Inculcando uma submissão nativa,
No rosto encosta a mão e reflexiva,
Lacrimosa soluça e se lamenta.
Em presença do vulto miserando,
Eis que acordo assustado e então lhe digo:
Quem és, triste mulher? (me perguntando)
Sou a pobreza que procura abrigo:
Desgostoso fiquei: mas, resmungando,
A força a recolhi... Móra comigo.

                   
O espantoso trovão não intimida
Ao justo: _ao pecador sómente abala
Porqu’apenas nos ares elle estala
Do remorso magoar faz a ferida.
Não receia perder a mortal vida,
Qu’ou mais tarde, ou mais cedo enfim s’exhala,
Teme, por seu peccado, eternisal-a
N’um tormento infinito, sem medida.

Mas o nosso bom Deos (alto juízo!)
Suspende por mil vezes, que dardeja
Esse raio, que mata d’improviso.
Não s’espante ó mortal, alerta esteja!
Si o écho do trovão serve de aviso,
É nosso Amigo Deos quando troveja.

                          DECIMA.

Emquanto a tormenta dura,
Emquanto soa o trovão,
Palpitando, o coração
Só com Deos fallar procura;
Mas logo que a nuve’escura
Em chuveiros se desata,
Esquecido, já não trata
De mitigar o furor
Desse Deos, trovejador
Que forja o raio que mata.

                      OITAVAS. (*)

Pavoroso trovão enche d’espanto
Ao mais forte mortal, desabusado:
O virtuoso sim, não teme tanto,
Porque nunca s’encontra descuidado:
O peccador receia, a cada canto,
Que o raio punir venha o seu peccado;
Ouvindo a voz de Deos, a quem recorre,
Quando troveja o Céo, pensa que morre.
                          _______
Quando o Deos do trovão do throno augusto
Dispara sobre a terra o raio irado,
Geme, tremula o ar, fica de susto
O orbe nos seus eixos abalado.
Esse mesmo feliz, que tão robusto,
Na saúde, não tem jamais olhado
Para a Mão-poderosa qu’o soccorre
Quando troveja o Céo, pensa que morre.
(*) Foram improvisadas por occasião de uma trovoada, de que resultou ser fulminado um seu contemporâneo – Felippe Berlinda – Escreveu na mesma occasião o seguinte dístico:
Fulminat Omnipotens, summo condit oethere fulmen:
Quos amat, hos propria verberat ipse manu.
                                                          
 
                                                     Fac-símile

QUEIXAS DO PRESBYTERO INDIGENTE

Oh quantas vezes! Quantas!
Só do interesse levado,
Impuro, sobre os Altares,
Eu tenho sacrificado!
                       Maldita necessidade
                      Que a tanto obriga a vontade!

Oh quantas vezes! Quantas!
Armando á benevolência
No tribunal, constrangido,
Me assento da Penitencia!
                       Maldita necessidade
                      Que a tanto obriga a vontade!

Quantas vezes, maldizendo,
Ao breviário me avanço,
(Pensão dura que não tem
Nem um dia de descanço!()
                        Maldita necessidade
                        Que a tanto obriga a vontade!

Quantas vezes semear
Vou, nas vinhas do senhor,
Sómente por adquirir
Ganho e nome de orador!
                      Maldita necessidade
                     Que a tanto obriga a vontade!

Quantas vezes, sem vergonha
Do povo reparador,
Obro cousas que desdouram
Do meu do meu estado o pudor!
                         Maldita necessidade
                        Que a tanto obriga a vontade!

Quantas vezes no congresso
Por manter a adulação,
Devoro, sem caridade
Na honra de meu irmão!
                        Maldita necessidade
                        Que a tanto obriga a vontade!

Por uma pataca, e menos...
Quantas, quantas madrugadas,
Vou, rebuçado na capa,
Celebrar Missas privadas!
                        Maldita necessidade
                        Que a tanto obriga a vontade!

Quantas vezes tropeçando,
Soffrendo algumas masellas,
Vou acompanhar os mortos,
Atraz do dinheiro ou vellas!
                       Maldita necessidade
                       Que a tanto obriga a vontade!

Quantas vezes, com pesar,
Absolvo a mão penitente,
Por prevenir o int’resse,
Ou ter nome d’indulgente!
                        Maldita necessidade
                        Que a tanto obriga a vontade!

Quantas vezes na Piscina,
Me lavo (não por pureza)
Mas por ter, nos sacrifícios
Desculpa minha avareza!
Maldita necessidade
Que a tanto obriga a vontade!
 
             Fac-símile
Oh quantas vezes! Quantas!
Do caracter me arrependo,
Quando se passam semanas
Que os Dons sagrados não vendo!
                         Maldita necessidade
                        Que a tanto obriga a vontade!

Quantas vezes nas exéquias,
Abrindo sómente a bocca
Recebo individualmente
O salário que me toca!
                        Maldita necessidade
                        Que a tanto obriga a vontade!

Maldita necessidade!
Diabolica ambição!
Qu’escureces  a virtude,
E que offuscas a razão!...
Ordenei-me porque tinha
Para padre propensão...
Eis-ahi no que esbarrou
Minha santa vocação.

                      DECIMA. (*)

A ímproba mocidade
Que por si valor não tem,
Ataca um homem de bem,
A pretexto de piedade!
Por ver sua habilidade
Nas amorosas acções;
Em vez de tecer festões
Par’um’aurea capella,
Penduram-lhe na janella
Um rozário de limões!...
(*) Morava na rua das Flôres um velho gamenho que queria correr parelhas com os rapazes no campo de Venus. Estes zangados pozeram-lhe na janella um rozario de limões. O Padre Domingos morava na mesma rua, ao levantar-se vio o rozario e comprehendeu o epigramma e improvisou logo a décima.

                          RIFÃO.

Ambição rende
Ao sábio, ao rude...
É mais potente que a virtude:
Raro o que escapa
S’ella o illude.
Em ser benigna,
Por mais que estude,
Procura sempre
Quem mais a ajude.
Presa-se tanto
Como a saúde.
Mal que da igreja
Mais se desgrude,
Nem dos altares
Jamais se mude
Acha alli muita
Gente que a escute.

                             SATYRA.

 AO ABUSO QUE SE FASIA DO CHAPEO DE SOL.

Um chapéosinho de sol,
Com uma argolla por atilho,
Não há traste mais casquilho!
         Quanto a mim.
É um ramo de alecrim,
Ora ao peito, ora encostado,
Ora aberto, ora fechado,
Muito em graça.
Já sem elle ninguém passa,
Seja na força do Estio,
Haja vento, haja frio,
       Chova ou não.
Na igreja, na procissão
(Mesmo estando turvo o dia)
A bella chibantaria
          Não o larga.
É suave é doce carga
Que consola toda vez,
Mal haja o astuto inglez
         Que a introduzio.
Jamais à rua sahio,
Depois de inventiva tal,
Sem este bello signal,
         A polícia.
Pois, se a robusta milícia,
Se tal abuso despreza,
Ainda do sol indefeza
         Dia inteiro;
Se o campestre pegureiro
Ao rigor do tempo exposto
Um tal exquisito gosto
         Não procura;
Na praça a pelle mais dura
Se torna em cútis mimosa?!
Branda Phebe, ora calmosa,
         Não lh’agrada?!
Não reparo a moda usada,
Reparo o máo uso della
Chapeo de sol é umbella,
          Não ornato...
É um curioso artefacto,
De bella commodidade;
Mas passa a incivilidade
        Fóra d’horas.
Se dessa casa onde moras
P’ra onde vais pouco dista;
Porque hade levar à pista
           Tal chapeo?!
Se vês cerração no céo,
Que promette dia brusco,
E o mesmo sol lusco-fusco
       Nada esquenta:
Porque razão se apresenta
Um cortezão indiscreto
Em ar muito circumspecto
         Com tal aza?!
Quanta vez, ardendo em braza
Igneos raios tem soffrido
Ou no campo desabrido,
           Ou na eira?!
Este mesmo que hoje à beira
Do telhado e da janella
O mosquiteiro encapella
Com bom ar?
 
                                 c-símile
Quanta vez vemos passar,
No maior rigor da calma,
Coitadinha daquella alma
            Sem abrigo?!

Hoje assenta lá comsigo,
Que sem o chapéo da moda,
Não faz figura na roda
        Dos polidos?
Ah! Toleirões presumidos!
Sereis na roda apontados,
Por serdes desacisados
           Petimestres!

                DECIMAS.

              A AMBIÇÃO.

A ambição que andou corrida,
Um tempo (qualquer que seja)
Refugiou-se na igreja,
Foi alli bem recebida;
É em toda acção ouvida,
E a primeira consultada...
Vendo paga adiantada
Ou ao menos bem segura,
Profana a sanção mais pura,
Vende a cousa mais sagrada!
                       __
O QUE CHAMAM DE BRANQUIDADE 

Eu não sei em que consiste
O que chamam branquidade!
Si na cor, si na entidade,
Ou se tem outro algum chiste!
Si monarchas nunca viste
Sabe que elles brancos são?
Os brancos em conclusão,
Levam bispotes ao mar,
Por ladrões vão s’a enforcar,
Onde está o ser branco, então?

Onde está o ser branco, então?
Não busques no exterior,
Que o accidente da cor,
Não é que dá distinção:
Entra no seu coração;
Vê se tem uma alma nobre,
Genio illustre, inda que pobre,
Acções de homem de bem;
Se nada disto elle tem
É negro por mais que obre.

Eu vejo um branco de bem,
Dentro d’uma carruagem;
Na trazeira leva um pagem,
E este é branco também;
Não me dirá, pois, alguém,
Onde está a distincção?
Ambos os dous brancos são.
O de dentro e o da trazeira;
Não se dá maior asneira,
Onde está o ser branco então?

Onde está o ser branco então?
Dentro d’alma estão os dotes;
Há reis pretos, sacerdotes
Grandes, em toda a nação:
Mostra a prata a branquidão,
O ouro fusco é mais nobre,
A cor é um véo que encobre
Bons e mãos: o sangue é igual;
Quem põe nelle o essencial,
É negro, por mais que obre.

É branco o papa e o rei,
Fidalgo, duque, plebêo;
O mouro, o índio, o judêo,
O pastor que guarda a grei;
Tapuio é branco por lei;
Os carrascos brancos são,
Marquez, criado e vilão,
Mochilas e mariolas;
É branco tudo, ora bolas!
Onde está o ser branco então?
                      _____
DISTICO, NAS EXEQUIAS DO PADRE BELCHIOR.
Dormit, et in feretro nunc audit tristia fatrum
Carmina, quae cecinit, concomit ante choro.
                           _____
A FELIZ E SUSPIRADA VINDA DO NOSSO AMADO PASTOR O REVM. SR. JOAQUIM DE MELLO FRANCO.

                             ODE.
Quando o gosto no peito sobreabunda
Não se attreve o silencio a suffoca-lo.
Embora seja a voz menos fecunda;
           Convém manifestá-lo.
Aquella, que cantou muza saudosa
Sua auzencia nos threnos da Elegia
No seu regresso entoa hoje gostosa
             Os euges da alegria.

Euge, paracatuenses habitantes
Longe de nós suspiros e pezares,
Já honestos prazeres como dantes
          Rodeam nossos lares.
Já no alto dos montes, nem nos valles
Sôa mais o balato enternecido
Da grei, que recontando andou seus males
                     Ao tempo desabrido.
Cansou o pranto: o riso só domina:
A tristeza fugio: foi-se o desgosto:
A saudade cruel, pena mofina,
            Bannida deu de rosto.
Já o caro pastor, guia amoroso,
Da ausência o triste luto rasgar veio;
E levar seu rebanho sequioso
              A’s fontes de recreio.
Já soccorros de prompta providencia
Encontra nelle o mísero mendigo,
Que opprimido vivia da indigência
                  Sem descobrir abrigo.
A desgraçada ovelha já tem guarda,
Que das garras do lobo devorante
Salva, deffende e intrepito a resguarda
                       Com zelo vigilante.
Já não teme a viuvez e a orphandade
Tomar estado por não ter haveres,
Sem lucro elle despende da equidade
                 Os pastoraes deveres.
Despido da vaidosa insuflação
Quando ao seio do pobre o pão ministra
Cauto, não sabe a dextra da sinistra
          Porquanto esconde a mão.
Seus dotes não recordo lisongeiro.
Fumos da adulação aqui não cabem,
Delles formo um compendio verdadeiro
              Que todos vêem e sabem.

Nós vimos como em júbilos banhados
Grandes, pequenos, quantos aqui moram
Ao aposento seu apressurados
                   Por vê-lo de afervoram.

Nós vimos o rumor accelerado
Andar de boca em boca, porta em porta
Annunciando que era já chegado
              O bem que nos conforta.

Nós vimos uns aos outros d’entre as gentes
Parabéns mutuamente alegres darem:
Mesmo ovelhinhas tenras, innocentes
                         De ouvir se gloriarem.

Que dita imensa! Que porvir! Que glórias
Para um’alma, que tantas mil dirige?
Que assumpto para acções gratulatórias
                          Maior applauso exige!

Parabéns, habitantes venturosos,
Que um tal pastor vos deu o céo benigno.
Participae por annos numerosos
                   De tão feliz destino.

Se eu podesse apromptar de cordas d’ouro
Lyra de finas pedras guarnecida
Nella iria entoar um fausto agouro
                   À sua amável vida.


Porém meu instrumento é crasso e inerte
Não póde requintar em tom que agrade.
Se vozes há de urdir que desconcerte
                     Offerto-lhe a vontade...

Cante seus predicados relevantes
Outra muza de mais engenho e arte.
Se a cantar me arrojei seus dons brilhantes
                     Foi por ter nelles parte.
                                ____
                          A SERINGA

Seringa, saluctífero repucho,
Anti-hemorrhoimatico instrumento,
Remedio do intestino flactulento,
No meu doentio e pesado bucho.
Si até hoje não conheço teu refluxo,
Te trazia no lugar mais nojento;
Agora pôr te-ei no aposento,
Entre os meus bonitos trastes de luxo.

                                  FIM.
Fontes:
1 – Arquivo do autor;
2 – Revista Biblioteca Brasileira, 1863 – Hemeroteca Digital Brasileira – Biblioteca Nacional do Brasil.







Postagens mais visitadas

SÉRIE - PIONEIROS DO ARRAIAL DO OURO 18 - NETTO SIQUEIRA

Por José Aluísio Botelho Eduardo Rocha
A família Netto de Siqueira iniciada nos primórdios do arraial de Paracatu, derivam pela linha materna dos Netto Carneiro Leão, e que exemplifica o caldeamento racial na Paracatu colonial, ou seja, a união entre o branco europeu e o negro africano. Como dito acima, são aparentados dos Netto Carneiro Leão, descendentes do português Antonio Netto Carneiro Leão, que teve a filha natural Maria Netto Carneiro Leão com uma ex-escrava, alforriada por ele, como veremos adiante (imagem de batismo de Antonia), que, por dedução, de acordo com a idades dos filhos, deve ter nascido nas primeiras décadas da povoação, por volta de 1755, pouco mais ou menos, e portanto antes do casamento legítimo do capitão Antonio Netto Carneiro Leão com Ana Maria Lemes.
                      O CASAL TRONCO E SUA DESCENDÊNCIA
1. Maurício Tavares de Siqueira, filho natural de Joaquim Tavares de Siqueira e de Joana da Costa, preta mina, nascido na fazenda dos Quirinos, ribeira do Ri…

PIONEIROS DO ARRAIAL DO OURO 21 - BARBOSA DE BRITO

POR JOSÉ ALUÍSIO BOTELHO
EDUARDO ROCHA


Fato relevante: localizamos o testamento do capitão José Barbosa de Brito no Arquivo Municipal de Paracatu - ele testou aos 27 dias do mês (ilegível) de 1771. Na ocasião sua mulher já era falecida: "missa pela alma de minha mulher Agostinha da Costa Silva."Abaixo faremos algumas correções e acréscimos que achamos necessários à luz do novo documento.


José Barbosa de Brito. Em um documento datado de 1763, por nós compulsado, em que ele aparece como testemunha, está descrito: “José Barbosa de Brito, homem branco, casado, morador neste arraial de Paracatu, que vive de suas minas, natural da cidade de Braga, com idade de 60 anos, pouco mais, pouco menos.” Portanto, nascido por volta de 1703, em Braga, norte de Portugal. No seu testamento, ele declara ser natural da freguesia de São Vítor, Campo de Santana, cidade de Braga, filho legítimo de Manoel Barbosa e de Jerônima de Brito. Localizamos seu assento de batismo realizado aos 07/10/1703, vide …

LENDAS DO BRASIL CENTRAL 1 - CRÔNICAS INÉDITAS DE OLYMPIO GONZAGA

Por José Aluísio Botelho



Resgatamos, após minuciosas pesquisas, alguns escritos de Olympio Gonzaga que se encontravam desaparecidos, dentre eles, crônicas que escreveu para seu livro não editado, Lendas do Brasil Central, transcritas na grafia original, tal como ele as concebeu, sem correções ortográficas e gramaticais, para que nossos leitores avaliem a qualidade dos textos e sua importância para a história de Paracatu.
Sobre o autor: Olympio Gonzaga foi um homem inquieto, preocupado em resgatar a história de Paracatu, através de texto históricos, crônicas, narrativas de acontecimentos verídicos (como o caso dos jagunços do vale do Urucuia em 1926), seja através de registros fotográficos. Autodidata no campo da história, com formação escolar deficiente, tinha enorme dificuldade na interpretação de textos, as vezes se confundindo com as informações obtidas, falta de didatização em seus textos, bem como apresentava dificuldades no manejo da língua portuguesa. Mas, isto não importa, até …

TEXTOS INÉDITOS DE OLYMPIO GONZAGA - PRIMEIRA PARTE

Por José Aluísio Botelho

Olympio Gonzaga e o Mimeógrafo (lembram-se dele?, ancestral das impressoras modernas)

Olympio Gonzaga foi professor primário por longos anos, coletor federal, jornalista, fotógrafo, escritor, e por último comerciante: foi proprietário de um Armazém de secos e molhados (como se dizia à época) em Paracatu: no seu estabelecimento comercial vendia-se de tudo, desde um simples urinol até, eventualmente, automóveis.
Lá instalou seu mimeógrafo, com o qual prestava serviços à comunidade a preços módicos, inclusive cópias de seus escritos.

Fonte: Afonso Arinos na intimidade, Biblioteca Nacional do Brasil, divisão de manuscritos.

A seguir, alguns destes textos:

1) Reclame.



2) Biografia do Dr. Afrânio de Melo Franco, seu protetor político, a quem professava profunda admiração. 

HISTÓRIA A CONTA-GOTAS - JOSEFA MARIA COURÁ

PELA TRANSCRIÇÃO JOSÉ ALUÍSIO BOTELHO

DE ESCRAVAS À SINHÁS - JOSEFA MARIA E ROSA: NA ROTA DO DIVINO Texto de LUIZ MOTT, Antropólogo, professor da Universidade Federal da Bahia.
JOSEFA MARIA ficou na história através de um sumário de culpas que localizei na Torre do Tombo intitulado: “Para se proceder contra as feiticeiras”. Esta negra fora acusada de ser a líder e a proprietária de uma casa de cultos nas Minas de Paracatu (hoje a 200 quilômetros de Brasília), onde se realizava a Dança de Tunda, também chamada Acotundá, um ritual de louvor ao Deus da nação Courá. Segundo depoimento de algumas testemunhas que participaram de tais cerimônias, o ídolo venerado era representado “por um boneco de barro com cabeça e nariz à imitação do Diabo, espetado em uma ponta de ferro, com uma capa de pano branco, colocado no meio da casa em um tapete, com umas frigideiras em roda, e dentro delas, umas ervas cozidas e cruas, búzios, dinheiro da Costa, uma galinha morta, uma panela com feijão, moringas de á…

GENEALOGIA A CONTA-GOTAS - PIRES DE ALMEIDA LARA

Por Eduardo Rocha José Aluísio Botelho
Os Pires Almeida Lara do arraial das Minas do Paracatu tem origem em São Paulo, que de lá acorreram em busca do ouro. Os Pires e Almeidas vieram de Portugal, enquanto os Lara tem origem em Diogo de Lara, vindo de Zamora, reino de Castela no início do século dezessete. Em Paracatu encontramos um tronco desta família, porém não foi possível estabelecer, por falta de documentos, a vinculação parental, assim como se legítimos ou bastardos. Família miscigenada, esse ramo dos Pires de Almeida Lara começa com: 1- Apolinário Pires de Almeida Lara, falecido em 01-01-1851; casado com Ana Soares Rodrigues, falecida em 03-08-1862. Residentes na Rua do Calvário.
Inventário: 2ª Vara cx. 1862.

Filhos:

1-1 Félix Pires de Almeida Lara, falecido por volta de 1895; casado com Joana Cardoso do Rego, falecida por volta de 1895.

Inventário: 2ª Vara cx. 1919.

" Aos vinte e sete de dezembro de mil oito centos e trinta e seis, nesta frequesia de Santo Antonio da Manga …