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PADRE DOMINGOS SIMÕES DA CUNHA



              INTRODUÇÃO

     BREVES CONSIDERAÇÕES  

Objetivando arrancar do culposo anonimato e esquecimento em que jazem algumas das figuras mais notáveis desta gloriosa e histórica cidade sertaneja, encontramos em publicações de antanho um laborioso trabalho de resgate perpetrado por alguns abnegados intelectuais mineiros, inclusive de Paracatu, capitaneados pelo Dr. José Maria Vaz Pinto Coelho (*). Editor, organizou o livreto “Padre Domingos Simões da Cunha (Trovas Mineiras)”, publicado originalmente em 1863, pela revista “Biblioteca Brasileira”, editada no Rio de Janeiro, de sua propriedade. O padre Manoel Xavier do Valle, parente do editor da revista, foi o elo de ligação com os intelectuais paracatuenses João Jaques Roquete Franco (poeta Janjão), o médico Dr. Joaquim Pedro de Melo, autor da biografia do padre Domingos, o latinista e artista plástico, professor Sancho Porfírio Lopes de Ulhoa, Miguel Joaquim de Sousa Machado, futuro Cônsul Geral do Brasil no Paraguai durante a guerra, e por fim, José de Sousa Guimarães, músico e poeta menor, porém amigo de convivência com o padre escritor. Todos contribuíram para que se resgatasse o pouco do que sobrou da profícua obra do padre, que transitou entre desde a música sacra, passando pelo teatro e a poesia, e que se perdeu em sua quase totalidade. Aliás, foi ele que em 1780, criou uma casa de Ópera na Rua do Ávila no então jovem arraial de São Luiz e Santana das Minas do Paracatu, e que ainda funcionava em 1832 no mesmo lugar, segundo informações por nós compiladas.
A seguir, publicamos, respeitando a grafia original na medida do possível, este notável trabalho de recuperação da memória desse grande vulto paracatuense do passado, que viveu no Brasil colonial sob a égide de um governo absolutista português que a tudo censurava e proibia no campo da criação intelectual, notadamente, aquelas que poderiam ameaçar a estabilidade do regime.
(*) Homem abastado, era descendente do barão de Cocais; intelectual foi escritor e tradutor; deve-se a ele a recuperação de inúmeras obras de escritores provincianos mineiros.                 
     
BIOGRAFIA DO PADRE DOMINGOS SIMÕES DA CUNHA

 AUTOR - DR. JOAQUIM PEDRO DE MELO
(Texto transcrito na grafia original)

Domingos Simões da Cunha nasceu em 1755 (**) , na cidade do Paracatú, então arrayal de S. Luiz e Sant’Anna, Minas do Paracatú, comarca de Sabará, em uma chácara, denominada hoje Bacheiro, e n’essa época, Capitão-mor, distante da povoação cerca de meio quarto de légua, onde tinha lavras de mineração de ouro seu pai o capitão-mor Clemente Simões da Cunha (***).
Desde sua infancia mostrando muita vivacidade e amor aos estudos, seu pai, que era um dos mais poderosos mineiros, procurou satisfazer  a inclinação do esperançoso adolescente.
Para este fim, logo que completou os estudos de primeiras letras, fel-o entrar para a aula de latinidade do professor particular padre-mestre Rebordões, insígne grammatico, que dotou a nascente povoação com mui distinctos discípulos, que se celebrizaram, como nosso padre Simões, o Dr. Carlos Dias de Carvalho Paracatuense, o primeiro filho deste paiz, que se formou em Coimbra, e muitos outros.
Ainda estudante de latim, desenvolveu o padre Domingos extraordinaria vocação para a poesia, compondo varios ensaios, que se perderam, mas que, segundo a opinião de seus contemporaneos, inculcavam raro talento. Tornado perfeito estudante de latim, lingua, que conheceu cabalmente, e não encontrando mais alimento para a sua avidez para aprender, dirigiu-se à Bahia, já então moço, e ahi freguentou varias aulas, completando o curso de humanidades. Então, desejando seu pai que elle se ordenasse, tratou o padre Domingos de coroar a vontade de seu protector; mas, encontrando muitas dificuldades devidas aos preconceitos do tempo pela sua condição, marchou para pernambuco, onde estudou theologia e outras matérias no seminario de Olinda, regressou a seu paiz natal, e nelle viveu sempre geralmente estimado até seu fallecimento, que teve lugar a 19 de setembro de 1824.
Sabia perfeitamente muzica, e até compunha com apurado gosto, deixando disso muitas provas, e sendo sempre o mestre da capella, e o primeiro que organisou aqui(Paracatu), um coro regular de muzica, e que também introduziu os divertimentos theatraes, -Neste sentido existem muitas cançonetas, balladas e cantos poppulares, que o povo ainda repete, compostas por elle e postas em muzica.
Fez para nosso theatro algumas farças e entremêzes, que ainda possuimos alguns, e entre elles o Gil-Braz, muito jocoso e ainda digno de applauso.
Sabia varias linguas, como a latina, italiana, franceza, e tinha, na Bahia, adquirido algumas noções do dialecto indígena. Escreveu varios sermões, que desappareceram, mas nunca pregou-os porque agastou-se com uma admoestação, que lhe fizêra o vigario Dr. Antonio Joaquim Correia de Mello sobre certos assômos liberaes, que transluziam em seus panegyricos. Compôz muitas poesias, de diversos generos, todas ineditas, e hoje quase perdidas; mas seu natural pendor era para a  Satyra, em que primava.
Consta que fizéra um  poemeto, dedicado à D. João VI, e que, mandando-o com outras producções suas ao Rio de Janeiro ao seu conteporaneo Dr. Francisco de Mello Franco, para que fôssem publicadas, e vendo demora  na satisfação de seu desejo, suppôz que fôra isso  menosprezo, chamou-as á si, e consumiu-as, entrando nesse numero a muito notavel Ode à Conceição de Nossa Senhora da qual ainda ouvimos a repetição de trechos, verdadeiramente encantadores e admiraveis.
Do muito que escreveu resta-nos hoje pouco e muito mutilado; porque diz-se que o que elle julgára melhor, fôra o que colleccionára, para remetter ao Rio, e que depois queimou, desde que formou o projecto de não  dar à luz.
O seu estylo na proza era grave, singelo e conciso, mas na poesia modificava-se muito, tornando-se gracioso, familiar e sublime em certas composições. Metrificava com muita facilidade, e era admirado pelas suas insoirações no improviso. Bom grammatico, escrevia com pureza e muita correção, como ainda hoje se vê de varios ecriptos seus, que restam.
O padre Domingos Simões da Cunha era de estatura mediana regular, de contextura muscular, trigueiro, cabellos pretos e crespos, testa grande e oval, olhos vivos,, nariz bem lançado, labios grossos, bocca um pouco rasgada; excellentes dentes, physionomia alegre, um pouco curvado para a frente, e tinha o andar compassado e grave. Era naturalmente affavel, e muito polido e urbano no seu trato social, e muito espirituoso em suas conversação; mas muito independente de genio e orgulhoso. Caridoso e philantropo empregou sempre os bens da fortuna que herdou, como philosopho, com prudente generosidade, desejando só nunca ser pesado à ninguem, como nunca o foi, pois morreu sem nada dever, deixando em dinheiro 12 patacões, que declarou serem sufficientes para seu enterro.
As cazas proprias em que morava na rua das Flôres, seus moveis, livros, e mais objectos de seu uso, legou-os ao padre Francisco Pereira Tavares, seu sobrinho.
Foi sepultado na igreja de Nossa Senhora de Amparo.
(**) É duvidosa a data de seu nascimento. Encontramos um assento de batismo, em que ele é padrinho, juntamente com seu pai, datado de 1758. Certamente ele nasceu  antes de 1755. Veja imagem abaixo:

(***) Capitão mor Clemente Simões da Cunha, português, natural de Viana do Castelo, onde nasceu em 1716.Veio para as Minas do Paracatu, logo após os descobertos de 1744, amealhando considerável fortuna. Nunca casou, mas, com escravas, alforriadas por ele, teve filhos naturais reconhecidos, dentre eles, o padre Domingos, tido com Bernarda do Espírito Santo. Aliás, a tipologia descrita do personagem biografado, mostra ter sido ele, fruto da miscigenação entre o europeu branco e o negro africano.
     
                                  Fac-símile                              
                        
               
     OBRA POÉTICA RESGATADA
                     (grafia original)

                      SONETO
                  
 Aos meus olhos em sonho se apresenta
(Não era espectro, porém gente viva)
Decrépita mulher, que, pensativa,
Aos pés do leito, junto a mim se assenta:
Sórdida, atropelada, macilenta,
Inculcando uma submissão nativa,
No rosto encosta a mão e reflexiva,
Lacrimosa soluça e se lamenta.
Em presença do vulto miserando,
Eis que acordo assustado e então lhe digo:
Quem és, triste mulher? (me perguntando)
Sou a pobreza que procura abrigo:
Desgostoso fiquei: mas, resmungando,
A força a recolhi... Móra comigo.

                   
O espantoso trovão não intimida
Ao justo: _ao pecador sómente abala
Porqu’apenas nos ares elle estala
Do remorso magoar faz a ferida.
Não receia perder a mortal vida,
Qu’ou mais tarde, ou mais cedo enfim s’exhala,
Teme, por seu peccado, eternisal-a
N’um tormento infinito, sem medida.

Mas o nosso bom Deos (alto juízo!)
Suspende por mil vezes, que dardeja
Esse raio, que mata d’improviso.
Não s’espante ó mortal, alerta esteja!
Si o écho do trovão serve de aviso,
É nosso Amigo Deos quando troveja.

                          DECIMA.

Emquanto a tormenta dura,
Emquanto soa o trovão,
Palpitando, o coração
Só com Deos fallar procura;
Mas logo que a nuve’escura
Em chuveiros se desata,
Esquecido, já não trata
De mitigar o furor
Desse Deos, trovejador
Que forja o raio que mata.

                      OITAVAS. (*)

Pavoroso trovão enche d’espanto
Ao mais forte mortal, desabusado:
O virtuoso sim, não teme tanto,
Porque nunca s’encontra descuidado:
O peccador receia, a cada canto,
Que o raio punir venha o seu peccado;
Ouvindo a voz de Deos, a quem recorre,
Quando troveja o Céo, pensa que morre.
                          _______
Quando o Deos do trovão do throno augusto
Dispara sobre a terra o raio irado,
Geme, tremula o ar, fica de susto
O orbe nos seus eixos abalado.
Esse mesmo feliz, que tão robusto,
Na saúde, não tem jamais olhado
Para a Mão-poderosa qu’o soccorre
Quando troveja o Céo, pensa que morre.
(*) Foram improvisadas por occasião de uma trovoada, de que resultou ser fulminado um seu contemporâneo – Felippe Berlinda – Escreveu na mesma occasião o seguinte dístico:
Fulminat Omnipotens, summo condit oethere fulmen:
Quos amat, hos propria verberat ipse manu.
                                                          
 
                                                     Fac-símile

QUEIXAS DO PRESBYTERO INDIGENTE

Oh quantas vezes! Quantas!
Só do interesse levado,
Impuro, sobre os Altares,
Eu tenho sacrificado!
                       Maldita necessidade
                      Que a tanto obriga a vontade!

Oh quantas vezes! Quantas!
Armando á benevolência
No tribunal, constrangido,
Me assento da Penitencia!
                       Maldita necessidade
                      Que a tanto obriga a vontade!

Quantas vezes, maldizendo,
Ao breviário me avanço,
(Pensão dura que não tem
Nem um dia de descanço!()
                        Maldita necessidade
                        Que a tanto obriga a vontade!

Quantas vezes semear
Vou, nas vinhas do senhor,
Sómente por adquirir
Ganho e nome de orador!
                      Maldita necessidade
                     Que a tanto obriga a vontade!

Quantas vezes, sem vergonha
Do povo reparador,
Obro cousas que desdouram
Do meu do meu estado o pudor!
                         Maldita necessidade
                        Que a tanto obriga a vontade!

Quantas vezes no congresso
Por manter a adulação,
Devoro, sem caridade
Na honra de meu irmão!
                        Maldita necessidade
                        Que a tanto obriga a vontade!

Por uma pataca, e menos...
Quantas, quantas madrugadas,
Vou, rebuçado na capa,
Celebrar Missas privadas!
                        Maldita necessidade
                        Que a tanto obriga a vontade!

Quantas vezes tropeçando,
Soffrendo algumas masellas,
Vou acompanhar os mortos,
Atraz do dinheiro ou vellas!
                       Maldita necessidade
                       Que a tanto obriga a vontade!

Quantas vezes, com pesar,
Absolvo a mão penitente,
Por prevenir o int’resse,
Ou ter nome d’indulgente!
                        Maldita necessidade
                        Que a tanto obriga a vontade!

Quantas vezes na Piscina,
Me lavo (não por pureza)
Mas por ter, nos sacrifícios
Desculpa minha avareza!
Maldita necessidade
Que a tanto obriga a vontade!
 
             Fac-símile
Oh quantas vezes! Quantas!
Do caracter me arrependo,
Quando se passam semanas
Que os Dons sagrados não vendo!
                         Maldita necessidade
                        Que a tanto obriga a vontade!

Quantas vezes nas exéquias,
Abrindo sómente a bocca
Recebo individualmente
O salário que me toca!
                        Maldita necessidade
                        Que a tanto obriga a vontade!

Maldita necessidade!
Diabolica ambição!
Qu’escureces  a virtude,
E que offuscas a razão!...
Ordenei-me porque tinha
Para padre propensão...
Eis-ahi no que esbarrou
Minha santa vocação.

                      DECIMA. (*)

A ímproba mocidade
Que por si valor não tem,
Ataca um homem de bem,
A pretexto de piedade!
Por ver sua habilidade
Nas amorosas acções;
Em vez de tecer festões
Par’um’aurea capella,
Penduram-lhe na janella
Um rozário de limões!...
(*) Morava na rua das Flôres um velho gamenho que queria correr parelhas com os rapazes no campo de Venus. Estes zangados pozeram-lhe na janella um rozario de limões. O Padre Domingos morava na mesma rua, ao levantar-se vio o rozario e comprehendeu o epigramma e improvisou logo a décima.

                          RIFÃO.

Ambição rende
Ao sábio, ao rude...
É mais potente que a virtude:
Raro o que escapa
S’ella o illude.
Em ser benigna,
Por mais que estude,
Procura sempre
Quem mais a ajude.
Presa-se tanto
Como a saúde.
Mal que da igreja
Mais se desgrude,
Nem dos altares
Jamais se mude
Acha alli muita
Gente que a escute.

                             SATYRA.

 AO ABUSO QUE SE FASIA DO CHAPEO DE SOL.

Um chapéosinho de sol,
Com uma argolla por atilho,
Não há traste mais casquilho!
         Quanto a mim.
É um ramo de alecrim,
Ora ao peito, ora encostado,
Ora aberto, ora fechado,
Muito em graça.
Já sem elle ninguém passa,
Seja na força do Estio,
Haja vento, haja frio,
       Chova ou não.
Na igreja, na procissão
(Mesmo estando turvo o dia)
A bella chibantaria
          Não o larga.
É suave é doce carga
Que consola toda vez,
Mal haja o astuto inglez
         Que a introduzio.
Jamais à rua sahio,
Depois de inventiva tal,
Sem este bello signal,
         A polícia.
Pois, se a robusta milícia,
Se tal abuso despreza,
Ainda do sol indefeza
         Dia inteiro;
Se o campestre pegureiro
Ao rigor do tempo exposto
Um tal exquisito gosto
         Não procura;
Na praça a pelle mais dura
Se torna em cútis mimosa?!
Branda Phebe, ora calmosa,
         Não lh’agrada?!
Não reparo a moda usada,
Reparo o máo uso della
Chapeo de sol é umbella,
          Não ornato...
É um curioso artefacto,
De bella commodidade;
Mas passa a incivilidade
        Fóra d’horas.
Se dessa casa onde moras
P’ra onde vais pouco dista;
Porque hade levar à pista
           Tal chapeo?!
Se vês cerração no céo,
Que promette dia brusco,
E o mesmo sol lusco-fusco
       Nada esquenta:
Porque razão se apresenta
Um cortezão indiscreto
Em ar muito circumspecto
         Com tal aza?!
Quanta vez, ardendo em braza
Igneos raios tem soffrido
Ou no campo desabrido,
           Ou na eira?!
Este mesmo que hoje à beira
Do telhado e da janella
O mosquiteiro encapella
Com bom ar?
 
                                 c-símile
Quanta vez vemos passar,
No maior rigor da calma,
Coitadinha daquella alma
            Sem abrigo?!

Hoje assenta lá comsigo,
Que sem o chapéo da moda,
Não faz figura na roda
        Dos polidos?
Ah! Toleirões presumidos!
Sereis na roda apontados,
Por serdes desacisados
           Petimestres!

                DECIMAS.

              A AMBIÇÃO.

A ambição que andou corrida,
Um tempo (qualquer que seja)
Refugiou-se na igreja,
Foi alli bem recebida;
É em toda acção ouvida,
E a primeira consultada...
Vendo paga adiantada
Ou ao menos bem segura,
Profana a sanção mais pura,
Vende a cousa mais sagrada!
                       __
O QUE CHAMAM DE BRANQUIDADE 

Eu não sei em que consiste
O que chamam branquidade!
Si na cor, si na entidade,
Ou se tem outro algum chiste!
Si monarchas nunca viste
Sabe que elles brancos são?
Os brancos em conclusão,
Levam bispotes ao mar,
Por ladrões vão s’a enforcar,
Onde está o ser branco, então?

Onde está o ser branco, então?
Não busques no exterior,
Que o accidente da cor,
Não é que dá distinção:
Entra no seu coração;
Vê se tem uma alma nobre,
Genio illustre, inda que pobre,
Acções de homem de bem;
Se nada disto elle tem
É negro por mais que obre.

Eu vejo um branco de bem,
Dentro d’uma carruagem;
Na trazeira leva um pagem,
E este é branco também;
Não me dirá, pois, alguém,
Onde está a distincção?
Ambos os dous brancos são.
O de dentro e o da trazeira;
Não se dá maior asneira,
Onde está o ser branco então?

Onde está o ser branco então?
Dentro d’alma estão os dotes;
Há reis pretos, sacerdotes
Grandes, em toda a nação:
Mostra a prata a branquidão,
O ouro fusco é mais nobre,
A cor é um véo que encobre
Bons e mãos: o sangue é igual;
Quem põe nelle o essencial,
É negro, por mais que obre.

É branco o papa e o rei,
Fidalgo, duque, plebêo;
O mouro, o índio, o judêo,
O pastor que guarda a grei;
Tapuio é branco por lei;
Os carrascos brancos são,
Marquez, criado e vilão,
Mochilas e mariolas;
É branco tudo, ora bolas!
Onde está o ser branco então?
                      _____
DISTICO, NAS EXEQUIAS DO PADRE BELCHIOR.
Dormit, et in feretro nunc audit tristia fatrum
Carmina, quae cecinit, concomit ante choro.
                           _____
A FELIZ E SUSPIRADA VINDA DO NOSSO AMADO PASTOR O REVM. SR. JOAQUIM DE MELLO FRANCO.

                             ODE.
Quando o gosto no peito sobreabunda
Não se attreve o silencio a suffoca-lo.
Embora seja a voz menos fecunda;
           Convém manifestá-lo.
Aquella, que cantou muza saudosa
Sua auzencia nos threnos da Elegia
No seu regresso entoa hoje gostosa
             Os euges da alegria.

Euge, paracatuenses habitantes
Longe de nós suspiros e pezares,
Já honestos prazeres como dantes
          Rodeam nossos lares.
Já no alto dos montes, nem nos valles
Sôa mais o balato enternecido
Da grei, que recontando andou seus males
                     Ao tempo desabrido.
Cansou o pranto: o riso só domina:
A tristeza fugio: foi-se o desgosto:
A saudade cruel, pena mofina,
            Bannida deu de rosto.
Já o caro pastor, guia amoroso,
Da ausência o triste luto rasgar veio;
E levar seu rebanho sequioso
              A’s fontes de recreio.
Já soccorros de prompta providencia
Encontra nelle o mísero mendigo,
Que opprimido vivia da indigência
                  Sem descobrir abrigo.
A desgraçada ovelha já tem guarda,
Que das garras do lobo devorante
Salva, deffende e intrepito a resguarda
                       Com zelo vigilante.
Já não teme a viuvez e a orphandade
Tomar estado por não ter haveres,
Sem lucro elle despende da equidade
                 Os pastoraes deveres.
Despido da vaidosa insuflação
Quando ao seio do pobre o pão ministra
Cauto, não sabe a dextra da sinistra
          Porquanto esconde a mão.
Seus dotes não recordo lisongeiro.
Fumos da adulação aqui não cabem,
Delles formo um compendio verdadeiro
              Que todos vêem e sabem.

Nós vimos como em júbilos banhados
Grandes, pequenos, quantos aqui moram
Ao aposento seu apressurados
                   Por vê-lo de afervoram.

Nós vimos o rumor accelerado
Andar de boca em boca, porta em porta
Annunciando que era já chegado
              O bem que nos conforta.

Nós vimos uns aos outros d’entre as gentes
Parabéns mutuamente alegres darem:
Mesmo ovelhinhas tenras, innocentes
                         De ouvir se gloriarem.

Que dita imensa! Que porvir! Que glórias
Para um’alma, que tantas mil dirige?
Que assumpto para acções gratulatórias
                          Maior applauso exige!

Parabéns, habitantes venturosos,
Que um tal pastor vos deu o céo benigno.
Participae por annos numerosos
                   De tão feliz destino.

Se eu podesse apromptar de cordas d’ouro
Lyra de finas pedras guarnecida
Nella iria entoar um fausto agouro
                   À sua amável vida.


Porém meu instrumento é crasso e inerte
Não póde requintar em tom que agrade.
Se vozes há de urdir que desconcerte
                     Offerto-lhe a vontade...

Cante seus predicados relevantes
Outra muza de mais engenho e arte.
Se a cantar me arrojei seus dons brilhantes
                     Foi por ter nelles parte.
                                ____
                          A SERINGA

Seringa, saluctífero repucho,
Anti-hemorrhoimatico instrumento,
Remedio do intestino flactulento,
No meu doentio e pesado bucho.
Si até hoje não conheço teu refluxo,
Te trazia no lugar mais nojento;
Agora pôr te-ei no aposento,
Entre os meus bonitos trastes de luxo.

                                  FIM.
Fontes:
1 – Arquivo do autor;
2 – Revista Biblioteca Brasileira, 1863 – Hemeroteca Digital Brasileira – Biblioteca Nacional do Brasil.







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Texto José Aluísio Botelho
Pesquisas Eduardo Rocha 
Colaboração Mauro César da Silva Neiva


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  teve os filhos:

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SÉRIE - PIONEIROS DO ARRAIAL DO OURO 9: CORONEL SANCHO LOPES DE ULHOA E SEUS DESCENDENTES

José Aluísio Botelho Colaboração Eduardo Rocha

Os Ulhoa são oriundos do vale do Rio Ulla, província da Galícia, noroeste da Espanha, dividindo ao sul com Portugal. De origem judaica, com o advento da Inquisição se espalharam por toda a península Ibérica, bem como para outros países europeus, notadamente, Portugal, Holanda, Bélgica e Alemanha, que abrigavam grande contingente de famílias judias dispersas, desde a grande diáspora do povo judeu do Oriente Médio. Essencialmente comerciantes e mercadores, em Portugal dominavam o comércio do sal de Setúbal no século XV. Na segunda metade do século XIV, muitos deles vieram para o Brasil colônia, estabelecendo-se no Recôncavo baiano e na cidade da Bahia (Salvador). Comercialmente, se dedicaram a plantação da cana e no fabrico do açúcar, que exportavam para Portugal e outros entrepostos europeus; mercadores possuíam sua frota própria de navios, e comerciava, além do açúcar, o Pau Brasil, de larga aceitação na Europa. De família de cristãos-novos…