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SÉRIE BIOGRAFIAS - DR. FRANCISCO DE MELLO FRANCO


Por José Aluísio Botelho

(transcrito na grafia original)

No arraial hoje cidade de Paracatú, província de Minas-Geraes, nasceu Francisco de Mello Franco a 7 de setembro de 1757.
No seminario de S. Joaquim no Rio de Janeiro fez elle estudos até a edade de quinze annos, revelando intelligencia potente, e travesso talento: saiu d'alli forte latinista, e com outros conhecimentos incompletos de humanidades, sendo além disso apreciador de jovens poetas, e jovem cultor de musa traquinas; foi para a universidade de Coimbra, matriculou-se nas faculdades de medicina e de philosophia, e tendo facil, prodigiosa comprehensão, era estudante distincto nas aulas, e tinha sobra de horas para dedicar-se a poesia, preferindo as eróticas e as satyricas composições animado por célebres companhias de acadêmicos daquelle tempo.
Entre seus trabalho poéticos, em máxima parte perdidos avultou o poema – Reino da Estupidez – louvado e applaudido por muitos dos lentes, e por todos os condiscípulos; mas aborrecido e condemnado por não poucos, que se repularam (talvez com razão) objeto da satyra do estudante poeta.
Acudiu o tribunal do Santo Officio às queixas do resentimento e do ódio, e vendo offensas a moral e a religião nas poesias do jovem brazileiro, sobre elle poz suas garras, e arrastou-o para seus carceres medonhos, onde feroz o reteve por quatro annos!…
Aqui resplende bella e digna acção depois correspondida por outra não menos digna e bella.
O jovem Mello Franco amava e era amado, e a senhora objeto de seus extremos alias pouco dissimulados, generosa assoberbou as ameaças e os furores do Santo Officio, não quiz depor contra seu amado, e gemeu reclusa por espaço de um anno nos carceres do tribunal sacrílego: Mello Franco apenas recobrou a liberdade, correu a encontral-a, e deu-lhe a mão de esposo.
Continuando a estudar, tomou o gráo de doutor em medicina, estabeleceu-se em Lisboa, adquiriu extensa clínica, e grande reputação, ganhou a amizade de elevadas personagens, escreveu trabalhos e obras de sciencia médica, foi membro e chegou a ser vice-presidente da academia de sciencias de Lisboa, que frequentava assíduo; e feliz e mais que abastado vivia, quando as águias de Napoleão invadiram Portugal em 1807.
O dr. Francisco de Mello Franco já era grande notabilidade: em 1799 tinha sido um dos fundadores da academia de geographia e o príncipe d. João o tinha nomeado médico honorário da sua câmara; mas ou a lembrança de quatro annos de abandono cruel, em que ficára impunemente a provar os furores da Inquisição, ou suas ideias liberaes que o faziam desestimar o systema de governo de Portugal, ou algum outro sentimento que não explicou, levou-o à deixar-se ficar em Lisboa, parecendo indifferente a invasão estrangeira.
Era patriota dedicado, enthusiasta, e conhecido fóra da universidade de Coimbra por intrépido e audaz: seus amigos os brazileiros José Bonifacio, o bispo d'Elvas, e Luiz Paulino Pinto de França debalde o chamaram, e deram-lhe o exemplo heroico e esplêndido contra as hostes invasoras: o dr. Mello Franco não se moveu, ficou impassível em Lisboa a curar seus doentes.
Muitos o julgaram egoísta.
A invasão foi repulsada e vencida, o meteóro Napoleão apagou-se me Waterloo: Mello Franco soube tudo isso em Lisboa sem indiciar enthusiasmo e jubilo patriótico era como coração morto: só vivia pelo espírito para a sciencia.
Mas em 1817 carta escripta pelo próprio d. João VI rei de Portugal, Brazil, e Algarves, o convidou a dirigir-se à Itália para reunir-se às pessoas que deviam acompanhar para o Brazil a archiduqueza d'Austria d. Maria Leopoldina, noiva do príncipe real d. Pedro.
O dr. Mello Franco obedeceu, e chegado ao Rio de Janeiro serviu dedicadamente à família real, como médico da câmara, e teve na cidade clinica mais exigente e rendosa, do que tivéra em Lisboa.
E todavia ainda no seio da patria o dr. F. De Mello Franco indifferente à marcha dos negócios do Estado era apenas medico abalisado e exclusivamente entregue aos cuidados de sua clinica.
Mas rompe em Portugal a revolução de 1820, retumba no anno seguinte o grito electrico da liberdade, e o dr. Mello Franco, ressuscitado seu coração, se pronuncia immediatamente e com ardor pela causa constitucional, e pelo triumpho das idéas democraticas.
D. João VI já magoado pelo procedimento do dr. Mello Franco em Lisboa no anno de 1807, e em 1821 ainda mais resentido do seu enthusiasmo pela revolução constitucional, facilmente achou pretexto para dispensal-o do serviço de médico da câmara real, e para negar-lhe entrada no palácio.
O dr. Mello Franco doeu-se do castigo da intolerância, e quasi logo a fallencia de um negociante, seu amigo, a quem confiára toda a sua fortuna, o reduziu já velho à pobreza extrema, à ruína completa de sua fortuna, e à necessidade de trabalho diário e constante para comprar o pão cotidiano.
Affectado por grave moléstia subsequente foi para S. Paulo, em mais de um anno alli se conservou padecendo cada vez mais; perdida a esperança dos milagres do clima, embarcou-se para voltar ao Rio de Janeiro, e em Ubatuba, que aportou quasi agonisante, morreu a 22 de julho de 1823.
O dr. Mello Franco foi médico de grande e bem merecida nomeada, poeta de merecimento notável, e deixou de sciencias e de lettras os seguintes trabalhos, e obras estimaveis:
O Reino da Estupidez, poema heroe-comico em quatro cantos.
Tratado da educação physica dos meninos, para uso da nação portuguesa – publicado por ordem da Academia Real das Sciencias de Lisboa.
Elementos de hygiene.
Ensaios sobre as febres, com observações analyticas acerca da topographia e clima do Rio de Janeiro.
Discurso recitado na sessão pública da Academia Real de Sciencias de Lisboa, sendo vice-secretario.
Alem destes trabalhos deixou outros e poesias em manuscripto.

Nota: o artigo não vem assinado, parecendo ser de responsabilidade editorial do jornal.

 Fonte: Biblioteca Nacional Digital – Correio da Bahia, ano VII nº136, edição de 07 de setembro de 1877.
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A seguir, alguns destes textos:

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2) Biografia do Dr. Afrânio de Melo Franco, seu protetor político, a quem professava profunda admiração.