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SÉRIE BIOGRAFIAS - DR. MANOEL DE MELLO FRANCO

POR JOSÉ ALUÍSIO BOTELHO


(transcrito na grafia original)

Manoel de Mello Franco nasceu a 31 de janeiro de 1812 na villa hoje cidade de Paracatú, província de Minas-Geraes, e alli mesmo fez seus estudos de preparatórios.
Matriculado na Escola Jurídica de São Paulo, seguia animado o curso respectivo, quando em 1834 grave affecção pulmonar o obrigou por exigencia instantes dos médicos a interromper os estudos academicos, e partir para a Europa.
Chegando à Ilha da Madeira, Mello franco já se achava quasi todo restabelecido da moléstia que tão ameaçadora se pronunciára; mas tomando bem inspirada resolução, partiu para a França, e lá matriculou-se na escola de medicina de Montpellier, na qual teve por companheiro, e amigo íntimo o actual e venerando sábio o sr. Visconde de Prados.
Em 1836 sua vida perigou seriamente em consequencia de teimosa inflammação do fígado, e consequente hodropesia: sem esperança de cura, Mello franco quiz morrer na terra da pátria, voltou ao Brazil, e chegando ao Rio de Janeiro em poucas semanas se achou perfeitamente restituído a perfeita e robusta saúde.
No mesmo ano tornou para a França, e no seguinte tomou o gráo de doutor em medicina, e veio a chegar no Rio de Janeiro a 23 de outubro de 1837 donde no fim de alguns mezes se retirou para estabelecer-se em Paracatú.
Homem de esclarecida intelligência, de animo exaltado e enthusiasta, de vontade forte, de labor infatigável, de constância inflexível, de generosissimo coração, o dr. Mello Franco dedicou sua vida não só à clínica médica, na qual foi sorprendente, admirável pela segurança do diagnóstico, e pela com que infallível sentença do prognóstico; mas também à política, e ao progresso material de seu paiz.
Em Paracatú desempenhou cargos diversos de eleição popular, e exerceu o commando superior da guarda nacional.
Eleito deputado provincial, deixou Paracatú, e fixou sua residência na cidade do Ouro Preto.
Era liberal na política, e não mediu sacrifícios no cívico serviço do seu partido: em 1842 rebentando a revolta liberal de Minas-Geraes, Mello Franco fez-se nella um dos chefes, e o mais ardente soldado; entrou em combates, foi preso em Santa Luzia, e preso esteve em Ouro Preto dezoito mezes, sendo enfim absolvido pelo jury.
As senhoras mineiras de Diamantina, exaltadas liberais que eram, senhoras das famílias mais distinctas, reuniram-se um dia e cortando cada uma alguns fios de seus cabellos, mandaram trançal-os, e prendel-os adaptados a orlas de ouro em bello annel com as seguintes datas e palavras gravadas: 26 de julho - calor e victória: 29 de agosto – coragem e traição, o ofereceram esse annel histórico ao preso dr. Mello Franco, cuja digna e virtuosa viúva o conserva e zelosa o guarda, como preciosa lembrança.
Embora preso o dr. Mello Franco foi de 1842 a 1844 a alma da imprensa liberal de Minas- Geraes; impávido e vehemente elle escrevia com ardor, e dedicado alimentava com sua bolsa o prelo, que espalhava suas ideias, e atacava com energia às vezes até violenta os vencedores.
E embora preso, era talo o credito, e como que o prestigio de sua sciencia medica, que as representações e empenhos até de adversarios políticos levaram o general Andreia (depois barão de Caçapava) novo presidente de Minas-Geraes a ordenar livre sahida da cadeia ao dr. Mello Franco para prestar serviços medicos a doentes.
Às vezes um pouco original e zombeteiro, o dr. Mello Franco depois contava a rir, que obigado por amor do próximo a acceitar esse favor do presidente, impozera por condição ampla a liberdade pessoal, quando fosse ver doentes de família liberal, e um guarda de sentinella à sua pessoa, quando tivesse de visitar doentes de famílias do partido conservador.
Provavelmente o dr. Mello franco nunca deu valor a essa condição de zombaria politica, e é positivo que notabilidades conservadoras o foram procurar na cadeia de Ouro Preto, e o levaram prompto e honorificado pela mais esplendida confiança ao seio de seus lares domesticos a salvar pessoas as mais caras de suas famílias.A
Em Minas-Geraes continuou elle a dirigir a imprensa politica de seu partido até que eleito deputado da assembleia geral pela sua província em 1844, veio tomar assento na camara em janeiro de 1845 em que se abriu a sexta legislatura. Foi reeleito em 1848; mas a camara foi dissolvida em fevereiro do anno seguinte.
Voltou ao parlamento como supplente na oitava legislatura, e como deputado eleito nas de 1861 a 1863 e de 1864 a 1866.
O dr. Mello Franco foi deputado ministerial pelas ideias de seu partido até 1848;quasi que não appareceu na tribuna; mas quando tomou assento como supplente, foi sentar-se ao lado do maravilhoso Souza Franco, que durante o anno de 1850, tinha elle só e único mantido firme, brilhante e glorificada a bandeira do partido liberal, combatendo diária e incessantemente a unanimidade conservadora. Então o deputado Mello Franco, manifestou-se orador de opposição, orando frequentemente nas sessões de 1851 e 1852.
Não tinha os profundos conhecimentos de sciencias sociaes e de economia política, e de administração, como o seu collega e amigo íntimo, não ostentou nunca os arroubos de eloquencia, nem escrúpulos de apurada forma em seus discursos: o dr. Mello Franco foi orador de escola própria, que obrigava attenção dos adversários e que lhe deu notável popularidade. Logo que subia a tribuna, atacava energico, denunciando abusos; em seus discursos não havia flores, havia espinhos terríveis que feriam os ministros: fallava a linguagem do povo, sua palavra de opposicionista era como ferro em braza; aggredia sem piedade, resistia inflexível, depois do argumento atirava o sarcasmo, e muitas vezes ousado, e inabalável o seu discurso era como uma tempestade na camara em quasi unanimidade conservadora.
Nessa famosa legislatura a energia, e braveza herculeas de Mello Franco por assim dizer completaram a sciencia e a habilidade consummadas de Souza Franco na mais gloriosa e admirável opposição parlamentar do Brazil.
Depois desses annos, e já fóra gravíssima enfermidade levou o dr. Mello Franco às portas da morte; ainda assim sua robusta natureza, sua força vital vigorosíssima triumpharam da mais cruel affecção; elle porém resentiu-se desde então do mal profundo, que havia de leval-o a morte em nova exacerbação.
Em 1856 o dr. Mello Franco fixou sua residência em Petrópolis e alli tomou a direcção de secção aquem Parahybuna da companhia da União e Industria e nella prestou os melhores serviços até 1858, em que a deixou na mais zelosa e aproveitada fiscalisação administrativa.
De Petropolis passou a residir na cidade do Rio de Janeiro, onde estabeleceu importante casa commercial de consignação de café de sociedade com o barão de Pitanguy, e com seu filho Joaquim de Mello Franco, que unico e dignamente a representa hoje.
O dr. Mello Franco de novo e fortemente atacado por affecção cerebral que já o tinha ameaçado de morte falleceu depois de alguns mezes de contristadores padecimentos a 3 de novembro de 1871. No dia seguinte, a 4 de novembro numerosissimo acompanhamento de amigos politicos e particulares sem convite, nem pedido seguiram em despedida seus restos mortaes que foram depositados em jazigo perpetuo no cemiterio de S. Francisco de Paula no Rio de Janeiro.
Pai de família exemplar, homem de costumes puros, amigo de lealdade sem jaça, cidadão prestimoso, em politica pelo menos egual aos mais desinteressados, independentes e firmes liberaes, o dr. Mello Franco foi além disso da sciencia e da pratica da medicina o interprete e o sacerdote mais fiel caridoso e surpreendente inspirado.
Rico, exerceu em seus últimos annos a clínica medica por gosto, por dedicação aos amigos e por caridade aos pobres.
O dr. Manuel de Mello Franco homem illustrado e de muito notável intelligencia, foi ainda mais distincto pela magnanimidade do coração.

Fac-símile
Fonte: Hemeroteca da Biblioteca Digital da Biblioteca Nacional do Brasil – Correio da Bahia, edição de 4 de novembro de 1877.

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