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UM DIÁRIO FEMININO NO SÉCULO XIX EM PARACATU


INTRODUÇÃO:
Gilberto Freire ao elaborar sua grande obra “Casa Grande e Senzala”, relatou não ter encontrado em suas pesquisas nenhum diário escrito pelas Sinhás e Sinhazinhas das casas grandes do período colonial e imperial, certamente pelo elevado índice de analfabetismo entre as mulheres daquela época, mesmo que pertencessem as elites locais. Pois bem, o objetivo desse trabalho é apresentar um "diário feminino", na verdade anotações feitas pela minha tataravó Cândida de Melo Álvares, acerca dos fatos que ela julgou serem os mais importantes ao longo de sua vida a partir de seu casamento com o Tenente-coronel Domingos Pimentel de Ulhoa. O curioso é que não há nenhuma referência à sua infância e juventude neste diário, talvez por ter se perdido em alguma gaveta do tempo. Vamos a ele, literalmente:
O casamento
“Casei-me a 15 de Novembro de 1840, tendo a idade de 20 anos e o marido 25.”
Os Filhos
“Nasceu nossa primeira filha, Adelina em 19 de Dezembro de 1841”;
Nasceu a segunda filha Laura a 18 de Fevereiro de 1844. Casou-se em 18 de Abril de 1874 e faleceu no Rio de Janeiro a 4 de Março de 1886. Casou-se aqui no dia que acima disse e saiu para a Corte no dia 18 de Maio do mesmo ano. Lá teve dois filhos: Emmanoel que nasceu a 18 de Fevereiro de 1875 e Othoniel que nasceu a 21 de Agosto de 1876;
Nasceu o terceiro filho Frederico a 19 de Fevereiro de 1846;
Nasceu o quarto filho Thomaz a 07 de Março de 1848;
Nasceu a quinta filha que faleceu apenas nascera, (.....) e não teve nome, em 28 de Setembro de 1849;
Nasceu a sexta filha Cândida a 3 de Agosto de 1850;
Nasceu a sétima filha Anna a 26 de Dezembro de 1852;
Nasceu a oitava filha Mariana a 14 de Julho de 1855. Casou-se a 22 de Agosto de 1874 com o Dr. Paraíso (1) e foi para São Romão e de lá veio para o Capão Redondo. Faleceu aí a 27 de Abril de 1875(2);
Nasceu “meu último filho Duarte a 15 de Abril de 1858.”.
Batizados dos filhos
Padrinhos de meus filhos
De Adelina, minha Mãe e meu Sogro representaram D. Sebastiana Ferreira de Jesus;
De Laura, minha Sogra e meu pai representaram Izabel da Silva;
De Frederico, meu Pai e minha Mãe. Ele representou Marcela de Brito;
---------------------------------------------------------------------------------------------------------- De Thomaz, meu Pai e minha Sogra, ele representou a Sra. Izabel da Silva;
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De Cândida, meu Pai e o Sr. Vigário Miguel Arcanjo representou a Senhora Marcela;
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De Anna, meu Pai, minha Sogra representou à mesma Marcela; foi o último de meus filhos que meu pai conheceu porque desde o tempo em que esta nasceu já ele estava doente;
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De Duarte, minha cunhada Dona Mariana e o Sr. Justino Baptista.
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Padres que batizaram meus filhos
Adelina foi o Padre Francisco Pereira Tavares;
Laura, Dom José de Brito Freire, vigário interino;
Frederico, o vigário Miguel Arcanjo que tinha chegada a pouco neste lugar;
Thomaz, Cândida Anna, Mariana e Duarte, o mesmo vigário.
Aqui uma digressão:
Em Junho de 1854, mandei por em minha boca os dentes feitos pelo Dentista Manoel, que foi primeiro que aqui veio. Importaram em 230$000 Reis e depois passados alguns anos, foram mudados por outros, pelo dentista Estanislau. (3)
Entrada de meus filhos para a Escola
Adelina para a Escola de D. Francisca da Costa Pinto a 4 de Maio de 1848. Saiu em Dezembro de 50;
Laura a 30 de Julho de 1849 e Frederico para a Escola do Padre Moura a 13 de Setembro de 1852 de idade de seis anos e meio;
Thomas em janeiro de 1854, idade cinco anos e meio;
Cândida em Janeiro de 1857, com a idade de seis anos e meio;
Anna em Setembro de 1857 com quatro anos e oito meses;
Novas digressões
O Sr. Ulhoa abriu ferida no braço em 20 de Fevereiro de 1857(4); Thomas quebrou o braço em Janeiro de 1855;
As mortes em família
Faleceu meu prezadíssimo Pai a 26 de Agosto de 1853, tendo a idade de 80 anos seis meses e alguns dias. Está sepultado na Matriz, perto do altar mor, do lado esquerdo. (5);
Faleceu meu respeitável Sogro e Compadre muitas vezes em 22 de Abril de 1871;
Faleceu minha prezadíssima Mãe a 21 de Dezembro de 1884, tendo a idade de 90 anos ou mais, pois não se achou assento de batismo; havia opiniões que minha mãe viveu cem anos. Apareceu depois um assento que ela nasceu em seis de Fevereiro de 1786;
Faleceu minha neta Georgina em 15 de Maio de 1888;
Faleceu minha estimada e prezada Sogra e Comadre em 27 de Agosto de 1887;
Faleceu minha prezada irmã a 21 de Fevereiro de 1896;
Faleceu meu prezado genro e compadre Dr. Francisco Manoel Paraíso a cinco de Setembro de 1899;
Faleceu meu prezado genro, viúvo de Laura, Dr. Augusto Ferreira dos Reis em cinco de Abril de 1900;
Faleceu o meu prezadíssimo, sempre lembrado e chorado marido Domingos Pimentel de Ulhoa em 25 de Fevereiro de 1893, de idade 78 anos incompletos; (6).
Faleceu meu filho Frederico em 01 de Fevereiro de 1907.
Os casamentos dos filhos
“Casou-se minha filha Adelina a 30 de Novembro de 1861(7) e teve a primeira filha que nasceu morta, em 06 de Abril de 1863”.
Nasceu minha neta Cândida, filha de Adelina a 19 de Abril de 1864;
Nasceu o Luís, terceiro filho a 21 de Junho de 1866;
Tita a 18 de Dezembro de 1867;(8)
Augusta a 12 de Setembro de 1869;
“Arthur a 22 de Janeiro de 1871.”
Outras digressões
Mudamos para a casa do Largo da Jaqueira a 17 de Outubro de 1859, tendo gasto na construção quatro anos e tanto (9);
Saíram para estudar em Mariana os dois meninos Frederico e Thomas em 03 de Junho de 1861;
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“Casou-se minha filha Cândida a 1° de Fevereiro de 1872”. (10)
Nasceu Georgina a 15 de Fevereiro de 1873;
Osório a 18 de Março de 1875;
Aníbal a 25 de Abril de 1876;
José a 04 de Março de 1878;
Anísio a 11 de Abril de 1880;
Francisco a 11 de Março de 1882;
Mariana a 06 de Maio de 1884;
Raul a 27 de Janeiro de 1886;
Maria a 25 de Fevereiro de 1888;
“Mário a 25 de Dezembro de 1892”.
“Casou-se minha filha Anna com o Dr. Paraíso em 25 de Dezembro de 1875, saiu para a Bahia no dia 05 de Janeiro de 1876”. Teve a primeira filha de nome Maria Cândida que nasceu em Alcobaça a 20 de Outubro de 1876;
Nasceu o segundo filho Domingos a 30 de Dezembro de 1877;
Francisco a 16 de Julho de 1880;
Pedro a 26 de Novembro de 1883;
Eduardo a 26 de Julho de 1885;
“José a 07 de Outubro de 1881”.
Partiram daqui para a Bahia minha filha Anna e o marido e netas a 08 de Junho de 91, tendo estado em Goiaz.
Os Escravos (11)
“Faleceu a escrava Jacintha, parda, a 18 de Outubro de 1885, de idade de 35 anos, para mais ou menos”;
Maria, escrava que foi para a Bahia com o Dr. Paraíso, teve uma filha de nome Flora, Lei do vente livre, nascida em 05 de Maio de 1874 e falecida em Janeiro de 1877;
Maria Africana faleceu a 17 de Janeiro de 1883;
Firmo que foi escravo, nasceu a 10 de Janeiro de 1859;
Fausta nasceu a 03 de Abril de 1857;
Nasceu a Pardinha Marta, filha de Cláudia a 1° de Abril de 1886;
Nasceu Ismênia, filha de Agostinha a 20 de Junho de 1894 e faleceu a 25 de Novembro de 1900;
Nasceu meu escravinho Caio, filho de Edwirgens a 22 de Abril de 1871;
Faleceu Fabião, escravo de minha mãe a 24 de Agosto de 1872;
Nasceu a filha da escrava Merência, de nome Agostinha a 28 de Agosto de 1873 – Lei do Ventre Livre;
Nasceu Romana, filha da escrava Edwirgens, a 28 de Fevereiro de 1874 – Lei do Ventre Livre;
Nasceu a segunda filha de Edwirgens a 17 de Outubro de 1875, chamada Fé – Lei do Vente Livre;
A Merência teve além da Agostinha, mais três filhas de Ventre Livre, todas falecidas;
Nasceu a escrava Eva, filha de Vitoriana em 21de Junho de 1861. Foi para a Bahia com o Dr. Paraíso;
Nasceu o escravinho Izidro, filho de Francisca a 02 de Janeiro de 1866. Foi para a Bahia com o Dr. Paraíso;
Nasceu Firma, escrava do meu genro Villela a 16 de Agosto de 1869, filha de Sabina, parda;
Nasceu a escrava Cláudia, filha de Francisca a 07 de Julho de 1868”.
Anotações esparsas
“Nasceu minha neta Carolina, filha de Thomas, em 09 de Agosto de 1886;”(12)
“Duarte foi nomeado Juiz de Direito em Dez de 1890 ou em Janeiro de 1891”;(13)
“Filho de Justa, que foi minha escrava, nasceu a 05 de Julho de 1902, de nome Abel.”
NOTAS
(1) – Dr. Francisco Paraíso Cavalcante de Albuquerque, esposo:
(2) – Provavelmente, ela faleceu durante ou após o trabalho de parto, fato muito comum naquela época;
(3) – Esse relato mostra como eram precoces as perdas dos dentes em pessoas jovens (note-se que ela tinha 33 anos);
(4) - Aqui o tratamento cerimonioso em relação ao marido, também comum na época;

(5) – Aqui uma prática usual naquela época, ou seja, os ricos eram enterrados no interior das igrejas, como demonstra o relato;
(6) – Neste relato, ela demonstra carinho e por que não, amor pelo marido morto, ao contrário dos casamentos de então, que era arranjado por interesses econômicos e para procriação;
(7) – José Gonçalves de oliveira Vilela, era seu esposo;
(8)- Estefânia Ulhoa Vilela, esposa de Dr. Sérgio Gonçalves Ulhoa;
(9) – Essa casa é hoje o solar onde funciona a Casa de Cultura de Paracatu – Maria Conceição Adjuto Botelho (Dondona);
(10) – Fortunato Jacintho da Silva Botelho, era seu esposo;
(11) – Note-se o espaço dado em seus relatos, aos escravos de sua convivência, bem como o modo de tratá-los e a referência a Lei do ventre Livre;
(12) - Dr. Thomás Pimentel de Ulhoa, médico radicado em Uberaba, onde deixou descendência;
(13) - Dr. Duarte Pimentel de Ulhoa, Advogado, nomeado Juiz de Direito de São Pedro de Uberabinha, atual Uberlândia, permanecendo no cargo durante 36 anos até sua morte em 1928.
*Dona Cândida de Melo Álvares (Melo Ulhoa, depois de casada), nasceu em 1820 em Luziânia, Goiás. faleceu em Paracatu em 1908.

Transcrição feita por José Aluísio Botelho, descendente de Dona Cândida.
Fonte – Arquivo Pessoal.

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Texto José Aluísio Botelho
Pesquisas Eduardo Rocha 
Colaboração Mauro César da Silva Neiva


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