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DONA BEJA E O TESTAMENTO DO PADRE


O vigário Francisco José da Silva foi um padre típico do sertão mineiro: fazendeiro abastado, político influente, e mulherengo, como quase todos os padres de seu tempo. Teve participação decisiva na evolução político-administrativo e social da Araxá na época em que lá viveu, entre 1815 e 1845, ano de seu falecimento. Participou, mesmo que discretamente, da Revolução Liberal em Araxá, apoiando seus sobrinhos liberais, liderados pelo coronel Fortunato José da Silva Botelho, no embate político que se travava em Minas nos anos de 1842. Legitimou em cartório em 1831, três filhos, a saber: Pedro Amado de São Paulo, Placidina Maria de Jesus, e Teresa Thomásia de Jesus.
Antes, em Dezembro de 1826, ele dita seu testamento escrito pelo advogado paracatuense João de Pina e Vasconcelos, onde declara não ter herdeiros descendentes (sic) e/ou ascendentes por serem falecidos seus pais, e que nomeava como seus herdeiros Antonio Machado de Morais, Pedro Amado de São Paulo, e Teresa Thomásia de Jesus, filha natural de Ana Jacinta de São José. Cada um deles foi aquinhoado com a terça parte dos bens, sendo que para Teresa Thomásia, caberia a fazenda Campo Aberto, com todo o gado vacum e cavalar. Os dois últimos nomeados como foi relatado acima, são seus filhos, e o primeiro seu sobrinho e genro, marido de Placidina, fatos omitidos no testamento, certamente para evitar problemas com a igreja, mesmo após sua morte. Talvez por pressões dos próprios filhos, tudo viria à tona com o processo de perfilhamento dos mesmos. Ele declara ainda em seu testamento, ser sua credora Ana Jacinta de São José, de uma dívida de quinhentos mil réis relativa a “serviços prestados" na sua casa de morada pela dita credora. Essa dívida deveria ser dissociada de seus bens, e ser paga pelo testamenteiro em dinheiro, após sua morte. Em nenhum momento o apelido "Beja ou Beija" é mencionado no testamento. Anos mais tarde, um recibo datado de 1854 e anexado no inventário do padre, ela declara ter recebido a dívida, sendo o documento assinado pelo seu genro, por ela não saber ler nem escrever. O inusitado nessa dívida é a época do pagamento da mesma, ou seja, após a morte do devedor. Ora, todo credor quer receber suas dívidas o mais imediato possível. Torna-se claro à luz do testamento, e com a legitimação dos filhos anos depois, que a dívida significava na verdade um dote deixado por ele à mãe de sua filha Teresa Thomásia, e que os serviços prestados eram na realidade, relações de concubinato sacrílego que ela manteve com o padre. No inventário do padre Francisco, aberto em 1845, as herdeiras são representada pelos seus respectivos maridos, cabeças de casal, e pelo seu filho Pedro Amado de São Paulo. Em momento algum do inventário é mencionado a maternidade dos filhos, embora anos antes tenha havido a legitimação dos três. Dona Beja, foi na verdade, uma mulher pobre, analfabeta, mãe solteira, seduzida pelas promessas de um padre mulherengo, engravidando aos 18 anos de idade de sua primeira filha, nascida em 1819. Melhorou de vida com a ajuda financeira do dito padre e talvez de outros amantes adquirindo bens de morada, sítios, escravos etc., o que permitiu ela ter vida confortável. Ela comparece ao censo de 1832 em Araxá, declara ter 32 anos, moradora do Fogo (casa) nº6, juntamente com a mãe Maria Bernarda de 56 anos, e oito escravos sendo quatro crianças e quatro adolescentes. Casou suas duas filhas com pessoas de famílias influentes do lugar, convivendo harmonicamente no seio dessas famílias, e com relações de amizade com outras famílias não menos importantes da vila, o que reforça sua condição de mulher “normal” entre seus pares. Não existe nenhuma evidencia documental, que avalie ter ela sido uma prostituta de luxo, uma cortesã, explorando a prostituição na lendária chácara do Jatobá, tal como a historia oficial de Araxá lhe imputa. A criação do mito Dona Beja teve objetivos meramente mercadológicos, no intuito de explorar as águas termais do Barreiro, já no alvorecer do século vinte, décadas após sua morte. Para desenvolver o turismo em Araxá, utilizaram as condições sociais da mulher comum, indefesa, submissa aos apetites sexuais de homens importantes do lugar, mas que levava uma vida normal como todas as outras mulheres de seu tempo. Só isso. Por fim, para ilustrar, atentem para o que escreveram sobre sua sexualidade: “a sábia natureza teria aprimorado os dons dessa bela entidade feminina com um equilíbrio fisiológico que se manifesta em seus hirtos e volumosos redondos seios”. O potencial de sua genitália manifestava-se na bela cor sempre rósea e sua epiderme clara. Seu Gineceu era “Vibrátil, Contrátil, Sucçante, Aspirante, Envolvente, Deglutante, em seu Paroxismo Libidinal. O homem embevecido era vencido e jugulado pelo potencial feminino semelhante a uma corrente elétrica de dez mil volts que o deixava exangue e quase desfalecido”. (Sebastião da Affonseca e Silva*, historiador).
* Sebastião Affonseca e Silva foi um dos criadores do mito Dona Beja, e curiosamente foi um dos sócios no primeiro empreendimento turístico do Barreiro.
Nota: o vigário Francisco José da Silva foi tio-avô do coronel Fortunato Jacinto da Silva Botelho de Paracatu.
Fonte: 1 – Cópia do inventário/testamento do padre Francisco José da Silva – original arquivado na Fundação Cultural Calmon Barreto, Araxá, Minas Gerais;
2 – Dona Beja: Desvendando o Mito, de Rosa Maria Spinoso de Montandon, editora edufu/ufu, 2004.
Postado por José Aluísio Botelho.

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