POR JOSÉ ALUÍSIO BOTELHO
A "Dama de Ferro" em Terras Mineiras
A "Espanhola", como ficou conhecida a pandemia que assolou o mundo no início do século XX e nem poupou o sertão mineiro..
Em 1918, Minas Gerais assistiu à chegada silenciosa e devastadora da Gripe Espanhola. O vírus, que teria surgido no Arkansas (EUA) e entrado no Brasil pelo porto de Recife em setembro daquele ano através do navio Demerara, não tardou a subir as montanhas mineiras, através da circulação do vírus vieculados pela estrada de ferro. Enquanto a capital e as cidades maiores monopolizavam a atenção da Diretoria de Higiene do Estado, o vasto interior mineiro enfrentava a epidemia em um cenário de isolamento e escassez.
Em Paracatu, a doença manifestou-se em outubro de 1918 e o rastro de dor deixado entre 1918 e 1919 revelou um período de provação que testou os limites da fragilidade do sistema de saúde local da época e a força da solidariedade sertaneja.
Origem e Chegada: O Navio Demerara e o Sertão
Embora estudos apontem o surgimento do vírus no Arkansas (EUA), foi pelo porto de Recife, através do navio Demerara em setembro de 1918, que a doença penetrou no Brasil. Em outubro de 1918, a gripe já era uma realidade em Paracatu, espalhando-se com uma rapidez que assombrou as autoridades.
Um Município à Própria Sorte
Naquele período, a saúde pública em Paracatu vivia um cenário de "total descalabro". Sem hospitais estruturados e contando apenas com um posto de higiene rudimentar, a cidade viu seus médicos e farmacêuticos adoecerem simultaneamente.
Apesar do descaso das esferas governamentais superiores, três nomes destacaram-se na linha de frente, atuando com abnegação:
Dr. Joaquim Brochado
Dr. Sérgio Ulhoa
Dr. Virgílio Uchoa
Associados a eles, também prestram relevantes serviços no combate a doença, os farmceutiso/boticários lá estabeleidos:
Adílio e Raul Tolentino de Castro
Agenor Caldas
Anísio Botelho
Além da doença, a população enfrentou chuvas torrenciais que duraram mais de um mês, a falta de energia elétrica e a escassez de alimentos, tornando o isolamento e o tratamento quase impossíveis para os mais pobres.
Solidariedade em Tempos de Crise
O jornal A Voz do Sertão registrou que, diante da omissão política, a sociedade civil se organizou. A Comissão de Donativos foi essencial: fazendeiros doaram gado e comerciantes forneceram mantimentos, tentando mitigar a fome que caminhava ao lado da febre.
Memorial das Vítimas: Genealogia e Memória
Para pesquisadores e descendentes, os registros dos jornais e do Cemitério Santa Cruz são fontes preciosas. Abaixo, listamos as vítimas mencionadas nos periódicos da época e nos registros oficiais de óbito por gripe.
O jornal ‘A Voz do Sertão, estimou em janeiro de 1919 cerca de 3000 (três mil) casos no município, porém o número de óbitos, embora controversos, foram baixos: cerca de 66 em uma notícia ou cerca de 200 em outra, se comparados aos números estimados. Paracatu, incontestavelmente, sob o ponto de vista do obituário, foi um lugar feliz.
Vítimas Noticiadas pelo Jornal "A Voz do Sertão"
Estas menções geralmente referiam-se a figuras conhecidas da sociedade ou famílias estabelecidas na área urbana e arredores:
Registros Oficiais de Óbito (Gripe Confirmada)
Entre outubro de 1918 e fevereiro de 1919, estes nomes foram registrados oficialmente com o diagnóstico da epidemia:
O Impacto no Campo
É importante notar que a letalidade foi acentuada na zona rural. Os "roceiros", vivendo em isolamento e sem recursos mínimos de higiene ou assistência médica, foram as vítimas preferenciais da "exterminadora epidemia". Muitos desses óbitos sequer chegaram aos livros oficiais com a causa correta, figurando apenas como morte "sem assistência médica".
Pergunto a você leitor: "Sua família possui relatos passados por gerações sobre esse período? Deixe nos comentários o nome de seus antepassados que viveram em Paracatu em 1918."
Fontes: * Jornal A Voz do Sertão (1918-1919). Hemeroteca digital. Garimpo da Memória.
Registros do Cemitério Santa Cruz, Paracatu-MG. Arquivo Público Municipal.
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