Pular para o conteúdo principal

Os Antigos Moradores de Paracatu: Arruamento Completo das Ruas em 1811: RUA DAS FLORES (Série – Post 2)

 Por José Aluísio Botelho (com IA)



Rua das Flores em 1811: devoção, flores e famílias de destaque
Características gerais das ruas da Vila de Paracatu do Príncipe em 1811
Diferentemente de outras localidades mineiras, não havia, em 1811, uma rígida diferenciação de classe social entre os habitantes das principais ruas da Vila de Paracatu do Príncipe. Outra característica marcante era a escassez de sobrados ao longo das vias: predominavam as casas térreas, o que pode indicar que Paracatu era, comparativamente, uma vila mais modesta que as grandes cidades do ciclo do ouro, como Vila Rica, Mariana e São João del-Rei.
Observa-se também a pouca presença de moradias no Largo da Matriz — ao contrário do que ocorria nas demais localidades, onde esse espaço era preferido pelas famílias abastadas e influentes. Na Rua das Flores, por exemplo, conviviam lado a lado famílias de destaque econômico, social e político com moradores de recursos bem mais modestos, conforme os valores dos imóveis. Entre os moradores notáveis estavam o Capitão-mor Domingos José Pimentel Barbosa e seu filho Joaquim Pimentel Barbosa, o Juiz de Fora Dr. João Evangelista de Faria Lobato (que mais tarde seria senador do Império) e o Sr. Antônio Neto Carneiro Leão, cujo sobrenome daria origem à nobreza brasileira através de descendentes ilustres, como o Marquês do Paraná, Hermeto Carneiro Leão. Obs.: Todos os imóveis foram avaliados em réis (notação colonial: 3$600 = 3.600 réis).
Origem e significado da Rua das Flores
A Rua das Flores (atual Rua Dr. Sérgio Ulhoa) era uma via secundária, mas cheia de simbolismo e vida cotidiana. Em 1811, ligava-se às Ruas do Ávila, Goiás e São Domingos, bem como ao largo da Matriz, integrando o dia a dia dos moradores no auge do ciclo do ouro.
Existem duas tradições locais que explicam o nome (ambas preservadas em placas históricas e na memória paracatuense):
  1. Versão religiosa: a rua servia como percurso oficial das procissões da Semana Santa. Os moradores enfeitavam o calçamento e as fachadas com flores naturais, transformando a via num tapete colorido para a passagem do cortejo — costume típico das vilas mineiras que misturava devoção e alegria popular.
  2. Versão afetiva: conta-se que uma senhora moradora da rua tinha cinco filhas lindíssimas, cada uma batizada com o nome de uma flor. A “casa das flores” teria inspirado o nome carinhoso da rua.
Importante: Embora em algumas cidades brasileiras o nome “Rua das Flores” tenha sido usado como eufemismo para áreas de prostituição, em Paracatu essa ligação não existe. As fontes históricas locais são unânimes nas duas versões acima e nunca mencionam qualquer conotação negativa.Hoje preservada no núcleo histórico tombado com o nome rua Sérgio Ulhoa, a antiga Rua das Flores continua encantando quem passeia pelo centro, lembrando que Paracatu não é só ouro e igrejas: é também devoção, afeto e memória viva.Os antigos moradores da Rua das Flores em 1811Note-se que em 1811, ainda não havia a Igreja e o Largo do Amparo.
Rua das Flores (da parte da nascente)
  • Casa nº 1 – Propriedade dos herdeiros do Padre José de Sousa Correia Landim (testamenteiro: Padre Teodoro de Sousa Correia Landim), abarracada, devoluta, sem avaliação.
  • Casa nº 2 – Propriedade de Miguel Leite de Faria, térrea, avaliada em 18$000.
  • Casa nº 3 – Propriedade do Tenente Francisco de Sampaio de Sousa Guimarães, térrea, avaliada em 14$400.
  • Casa nº 4 – Propriedade de José Antônio Mascarenhas e sua mulher Antônia Furtado Gomes, sobrado e terreno, devoluto, sem avaliação.
  • Casa nº 5 – Propriedade de Antônio Neto Carneiro Leão e sua mulher Anna Lemes, térrea, avaliada em 10$800.
  • Casa nº 6 – Propriedade do Coronel Manuel José de Oliveira Guimarães, térrea, ocupada gratuitamente por Maria Alves Duarte, avaliada em 12$600.
  • Casa nº 7 – Propriedade do Capitão José Guedes da Silva Porto, térrea, avaliada em 16$200.
  • Casa nº 8 – Propriedade dos herdeiros de Dona Teresa Maria de Jesus, térrea, alugada a Marcos Gomes de Jesus, avaliada em 7$200.
  • Casa nº 9 – Propriedade dos herdeiros de Antônia Rangel, térrea, ocupada por Frutuoso Soares Roiz e sua mulher Anna Josefa, avaliada em 9$000.
  • Casa nº 10 – Propriedade de Rita Maria de Andrade, térrea, alugada a Francisco Antônio de Assis, avaliada em 12$600.
  • Casa nº 11 – Propriedade de Josefa Pereira Machado, térrea, avaliada em 2$550.
  • Casa nº 12 – Propriedade de Ignácia Neto, térrea, avaliada em 4$500.
  • Casa nº 13 – Propriedade do Capitão Domingos José Pimentel Barbosa, térrea, ocupada por seu filho Joaquim Pimentel Barbosa, avaliada em 18$000.
  • Casa nº 14 – Propriedade de Júlio Baptista Franco e sua mulher D. Clara Maria de Siqueira, térrea, alugada a Lourenço do Amaral (2$700 ao mês por seis meses).
  • Casa nº 15 – Propriedade de Mariana de Brito Freire, térrea, avaliada em 3$600.
  • Casa nº 16 – Propriedade de Luís Roiz Alves e sua irmã Felisberta Roiz, térrea, alugada a Florentino Ribeiro, avaliada em 5$400.
  • Casa nº 17 – Propriedade de Joaquim Pimentel Barbosa e sua mulher Josefa Maria Rosa de Jesus (Soares de Sousa), térrea, devoluta, sem avaliação.
  • Casa nº 18 – Propriedade de Anna de Araújo Monteiro, térrea, muito velha, avaliada em 2$550.
  • Casa nº 19 – Propriedade do Alferes Antônio Pinto Alves, térrea, alugada a Anna de Oliveira, avaliada em 2$600.
  • Casa nº 20 – Propriedade do Padre Manoel José Ferreira Souto, térrea, devoluta, sem avaliação.
  • Casa nº 21 – Propriedade de Antônia Fernandes da Costa, térrea, devoluta, sem avaliação.
  • Casa nº 22 – Propriedade de Helena Roiz Cordeiro, térrea, avaliada em 5$400.
Rua das Flores (da parte do poente)
  • Casa nº 23 – Propriedade de Paula Teixeira, térrea, arruinada, sem avaliação.
  • Casa nº 24 – Propriedade de Clara Maria da Conceição (herdeira de Rosa Maria da Conceição), térrea, alugada a Eufrozina Pires de Oliveira, avaliada em 5$400.
  • Casa nº 25 – Propriedade de Joaquim de Araújo Velho e sua mulher Mariana dos Santos, térrea, avaliada em 3$600.
  • Casa nº 26 – Propriedade de Joaquim de Araújo Velho e sua mulher, térrea, principiada, sem valor.
  • Casa nº 27 – Chãos (lote) de Anna Nunes, devoluto, sem valor.
  • Casa nº 28 – Propriedade de Tereza Dias da Costa, térrea, avaliada em 3$600.
  • Casa nº 29 – Chãos de Antônio Pinto, devoluto.
  • Casa nº 30 – Propriedade de José da Castro Guimarães e sua mulher Rosa Maria Tavares, térrea, avaliada em 5$400.
  • Casa nº 31 – Propriedade de José Roiz Fraga, térrea, avaliada em 7$200.
  • Casa nº 32 – Propriedade de Tomé Moreira de Godois, térrea, devoluta.
  • Casa nº 33 – Propriedade de Miguel Alves de Sousa e sua mulher Maria José Martins (Ferreira), térrea, avaliada em 5$400.
  • Casa nº 34 – Propriedade do Tenente Francisco Rufino Xavier Baleeiro e sua mulher Maria de Sousa Correia Landim, térrea, avaliada em 7$200.
  • Casa nº 35 – Propriedade do Capitão Domingos José Pimentel Barbosa, sobrado com loja por baixo, alugada ao Dr. Juiz de Fora João Evangelista de Faria Lobato (3$600).
  • Casa nº 36 – Propriedade de Ifigenia Maria de Carvalho, térrea, avaliada em 9$000.
  • Casa nº 37 – Propriedade de Francisco Roiz da Silva e sua mulher Teodora da Costa, térrea, avaliada em 9$000.
  • Casa nº 38 – Propriedade de Rosa Gomes de Sá, térrea, avaliada em 10$800.
  • Casa nº 39 – Propriedade de Maria Joaquina, térrea, avaliada em 2$700.
  • Casa nº 40 – Propriedade de Brazida Duarte, térrea não acabada, avaliada em 2$700.
  • Casa nº 41 – Propriedade de Faustina Gonçalves, térrea, devoluta, não avaliada.
  • Casa nº 42 – Propriedade de Maria de Arruda, térrea, avaliada em 3$600.
  • Casa nº 43 – Propriedade de Maria Baptista, térrea danificada, avaliada em 3$600.
  • Casa nº 44 – Propriedade de Domingos Soares da Costa, térrea, avaliada em 7$200.
  • Casa nº 45 – Propriedade de Anna Maria de São José, térrea, devoluta, sem valor.
  • Casa nº 46 – Propriedade de Francisco José da Silva e sua mulher Rita Maria de São Tiago, térrea, alugada a Antônio Caetano de Morais, avaliada em 6$300.
  • Casa nº 47 – Propriedade do Padre Eustáquio José de Carvalho, térrea, ocupada gratuitamente por sua mãe D. Arcângela Maria de Moura, avaliada em 7$200.
  • Casa nº 48 – Chãos devolutos de D. Arcângela Maria de Moura, não avaliados.
Fonte: Acervo do Arquivo Público Municipal de Paracatu – MG (Arruamento da Vila de Paracatu, 01/04/1811).
Próxima rua da série: Rua do Ávila (parte sul e norte) – com nomes importantes e mais histórias dos nossos antepassados!

Comentários

Postagens mais visitadas

OS SANTANA DE RIO NOVO E BARBACENA

 Por José Aluísio Botelho "Esta é obra de genealogia, sujeita a correções e acréscimos". “ Os Santana de Rio Novo, termo de Barbacena, Tenente Joaquim José de Santana e sua mulher Maria Emerenciana de Jesus, casados em 1799”. Casamentos em Barbacena – Capela do Curral, aos 13/08/1799 casaram Joaquim José de S. Anna exposto em casa de Izidora Maria de Menezes, n/b na freguesia de S. João Del-Rei; = Maria Emerenciana de Jesus, f.l. de Francisco Ribeiro Nunes e Joana Maria da Conceição, n/b nesta. (original) Sobre o Tenente Joaquim José de Santana: natural do arraial de Bom Sucesso atrás da Serra do Ibituruna, onde foi batizado em 01/04/1781, filho de pais incógnitos, exposto em casa da viúva Izidora Maria de Menezes, moradora no mesmo arraial de Bom Sucesso, então termo de São João Del-Rei, província eclesiástica de Barbacena. No seu testamento ele não faz referência aos pais biológicos. Veja imagem abaixo: Batismo de Joaquim Ibituruna, a primeira povoação de Minas Gerais, con...

GUARDA-MOR JOSÉ RODRIGUES FRÓES

Por José Aluísio Botelho             INTRODUÇÃO  Esse vulto que tamanho destaque merece na história de Paracatu e de  Minas Gerais , ainda precisa ser mais bem estudado. O que se sabe é que habilitou de genere em 1747 (o processo de Aplicação Sacerdotal se encontra arquivado na Arquidiocese de São Paulo ), quando ainda era morador nas Minas do Paracatu, e embora fosse comum aos padres de seu tempo, aprece que não deixou descendentes*. Que ele foi o descobridor das minas do córrego Rico e fundador do primitivo arraial de São Luiz e Santana das Minas do Paracatu , não resta nenhuma dúvida. De suas narrativas deduz-se também, que decepcionado com a produtividade das datas minerais que ele escolheu, por direito, para explorar, abandonou sua criatura e acompanhou os irmãos Caldeira Brandt , que tinham assumido através de arrematação o 3º contrato de diamantes, rumo ao distrito diamantino . Documento de prova GENEALOGIA  Fróis/F...

ÍNDICE DA SÉRIE 1811 - VILA DE PARACATU DO PRÍNCIPE

Por José Aluísio Botelho Índice da Série: Os Antigos Moradores de Paracatu – Arruamento Completo de 1811 Bem-vindo(a) à série completa do Arruamento da Vila de Paracatu do Príncipe , transcrito diretamente do documento original de 1º de abril de 1811 , preservado no Arquivo Público Municipal de Paracatu. Aqui você encontra todas as ruas, largos, becos, travessas, chácaras e arraiais da vila com os nomes dos moradores, proprietários e valores dos imóveis da época. São mais de 400 registros que ajudam a reconstruir a Paracatu colonial. Você, caro leitor, certamente irá encontrar seus antepassados que lá viveram há duzentos anos. Clique nos títulos abaixo para acessar cada página: Post 1 -  Os Antigos Moradores de Paracatu: Arruamento Completo das Ruas em 1811: RUA DIREITA (Série - Post 1) A rua principal da vila colonial e sua lista completa de moradores. Post 2 –  Os Antigos Moradores de Paracatu: Arruamento Completo das Ruas em 1811: RUA DAS FLORES (Série – Post 2) Origem do ...

NETOS DE DONA BEJA - BATISMOS

Por José Aluísio Botelho Disponibilizamos as imagens de assentos de batismos de três netos de Dona Beja, acrescidos dos outros netos, bem como parte da descendência, de acordo com os documentos localizados, filhos de Joana de Deus de São José e do coronel Clementino Martins Borges. Nota: nada se sabe acerca da ascendência de Clementino Martins Borges, embora seu sobrenome é largamente difundido na região do triangulo mineiro e alto paranaíba. Sabe-se que ele faleceu em Estrela do Sul em novembro de 1910 em avançada idade. Alguém tem alguma pista? Batismo de Joana de Deus: "Aos 14 dias domes de Julho de 1838 o Rdo. Pe. José Ferreira Estrella Baptizou solenemente aingnocente Joanna, fa. natural de Anna Jacinta de Sam Jose forão P.P. o coronel João Jose Carneiro de Mendonça e o Alferes Joaquim Ribeiro da Silva epara constar mandei fazer este acento eque assigno. Araxa era supra".  Fonte: Revista O Trem da História, edição 49. Nota: os outros netos de Beja, filhos de Tereza T...

DONA BEJA E OS BOTELHOS DE PARACATU

 POR JOSÉ ALUÍSIO BOTELHO Dona Beja e os Botelhos de Paracatu Muito se tem falado, no âmbito familiar e fora dele, acerca do possível parentesco consanguíneo ou por afinidade entre Dona Beja e a família Botelho de Paracatu, ao longo de décadas. Essa dúvida, real ou propositalmente trazida pelos mais velhos — receosos da veracidade do parentesco com a mitológica personagem da história de Araxá, e que levou um dos nossos velhos tios, já falecido, a dizer peremptoriamente certa vez: “Eu não sou parente de uma cortesã” —, persiste até os dias atuais. Ana Jacinta de São José, a mitológica Dona Beja, nasceu em Formiga, Minas Gerais, por volta de 1800, filha natural de Maria Bernarda dos Santos e de pai ignorado. Chegou ao então florescente julgado de São Domingos do Araxá ainda menina, acompanhando a mãe e o irmão Francisco Antônio Rodrigues, talvez à procura de melhores condições de vida, já em princípios do século XIX. Segundo alguns historiadores, ela tornou-se uma mulher bonita, de ...

DONA BEJA E AS DUAS MORTES DE MANOEL FERNANDES DE SAMPAIO

Por José Aluísio Botelho A história que contaremos é baseada em fatos, extraídos de um documento oficial relativo a um processo criminal que trata de um assassinato ocorrido na vila de Araxá em 1836. O crime repercutiu no parlamento do império no Rio de Janeiro, provocando debates acalorados entre os opositores do deputado e ex-ministro da justiça, cunhado do acusado, como se verá adiante. Muitos podem perguntar porque um blog especializado em genealogia paracatuense, está a publicar uma crônica fora do contexto? A publicação deste texto no blog se dá por dois motivos relevantes: primeiro, pela importância do documento, ora localizado, para a história de Araxá como contraponto a uma colossal obra de ficção sobre a personagem e o mito Dona Beja, que ultrapassou suas fronteiras se tornando de conhecimento nacional. Em segundo lugar, porque um dos protagonistas de toda a trama na vida real era natural de Paracatu, e, portanto, de interesse para a genealogia paracatuense, membr...