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DONA BEJA E OS BOTELHOS DE PARACATU

 POR JOSÉ ALUÍSIO BOTELHO

Dona Beja e os Botelhos de Paracatu

Muito se tem falado, no âmbito familiar e fora dele, acerca do possível parentesco consanguíneo ou por afinidade entre Dona Beja e a família Botelho de Paracatu, ao longo de décadas. Essa dúvida, real ou propositalmente trazida pelos mais velhos — receosos da veracidade do parentesco com a mitológica personagem da história de Araxá, e que levou um dos nossos velhos tios, já falecido, a dizer peremptoriamente certa vez: “Eu não sou parente de uma cortesã” —, persiste até os dias atuais.

Ana Jacinta de São José, a mitológica Dona Beja, nasceu em Formiga, Minas Gerais, por volta de 1800, filha natural de Maria Bernarda dos Santos e de pai ignorado. Chegou ao então florescente julgado de São Domingos do Araxá ainda menina, acompanhando a mãe e o irmão Francisco Antônio Rodrigues, talvez à procura de melhores condições de vida, já em princípios do século XIX. Segundo alguns historiadores, ela tornou-se uma mulher bonita, de cabelos e olhos claros, que chamava a atenção dos homens do lugar, inclusive de certo “padre...” (grifo nosso).

Em 15 de fevereiro de 1819, nasceu sua primeira filha, Teresa Tomásia de Jesus, batizada a 24 de fevereiro do mesmo ano. O padre batizante foi o vigário Francisco José da Silva, e a menina teve como padrinhos o quartel-mestre Jerônimo José da Silva e Dona Teresa Tomásia de Jesus Rosa Botelho, respectivamente irmão e mãe do sacerdote.

O parto da criança deu-se na fazenda Campo Aberto, de propriedade do vigário Francisco, com assistência de Dona Teresa Tomásia Botelho, que emprestou seu nome à recém-nascida. Dona Beja residia, na época, em um sobrado na Praça da Matriz, vizinho ao do padre Francisco. Isso poderia ensejar um relacionamento sacrílego entre os dois, o que veio a se confirmar anos depois, quando o padre Francisco José da Silva reconheceu em cartório, através de escritura de perfilhamento datada de 16 de maio de 1831, Teresa Tomásia como sua filha legítima, bem como uma de suas herdeiras em testamento após sua morte, em 1845.

Não se sabe quando começou o relacionamento de Dona Beja e o padre, nem quanto tempo durou, mas tudo indica que eles contavam com a cumplicidade da família — fato corroborado pela atitude da mãe do padre, madrinha da neta, e que não incomodava o resto dos parentes, já que Dona Beja foi madrinha de batismo de Antônio, filho de Thomé Francisco da Silva Botelho, parente de seu amante.

Essas relações continuaram e, em 1833, ocorreu o casamento entre Teresa Tomásia e Joaquim Ribeiro da Silva Botelho, sobrinho do padre — portanto, primos —, reforçando ainda mais o vínculo de parentesco da moça com a família Botelho. Desse casal, nasceram os filhos Teodora Jacinta Fortunata, Joaquim, Francisco, Saturnino, José e Antônio. O relacionamento de Beja com a família continuou, inclusive no campo político, quando ela tomou partido dos Liberais na Revolução de 1842, ao lado dos Botelhos, adeptos dessa corrente partidária na região.

Em 1855, a neta mais velha de Dona Beja, Teodora Jacinta Fortunata, casou-se com seu tio paterno, o coronel Fortunato José da Silva Botelho, poderoso chefe político de Araxá. Em 1856, ela veio a falecer durante o trabalho de parto, juntamente com a criança, que não chegou a nascer.

Após esse trágico episódio, ocorreria a ruptura, talvez definitiva, dos vínculos de Dona Beja com a família Botelho, em decorrência de uma demanda judicial movida por ela contra o coronel Fortunato. Ela reclamava o direito de herança da neta, argumentando ser a principal herdeira em ordem ascendente, amparada na ausência de outros herdeiros, todos já falecidos.

Dona Beja obteve ganho de causa, e esse episódio acabou por se tornar o mote para a criação “oficial” do mito da personagem no início do século XX, no intuito de incrementar o turismo então nascente em Araxá com as descobertas das águas termais do Barreiro, localizadas no terreno onde existiu a antiga Chácara do Jatobá — propriedade de Ana Jacinta de São José, doravante a “heroína”, a “cortesã”, a “feiticeira” Dona Beja.

O vigário Francisco José da Silva, nascido em 1770, era filho do Capitão Gregório José da Silva, natural de Prados, Minas Gerais, e de Teresa Tomásia de Jesus Rosa Botelho, natural da Ilha Graciosa, Açores, Portugal. Além do vigário Francisco, o casal teve outros filhos, entre os quais José da Silva Botelho (aliás, inicialmente, único a adotar o sobrenome materno), que, em 1815, obteve uma sesmaria em Araxá denominada fazenda da Mandioca, onde se forjou um poderoso clã político e econômico, com enorme influência na região ao longo do século XIX.

Pois bem, dentre os dezoito filhos de José da Silva Botelho em seu casamento com Teodora Jacinta de Castro, houve José Jacinto da Silva Botelho, irmão de Joaquim Ribeiro da Silva Botelho (marido de Teresa Tomásia), que é crucial para o desfecho desse intrincado novelo genealógico e familiar.

José Jacinto da Silva Botelho, portanto primo de Teresa Tomásia, teve, em seu casamento com Áurea de Castro Botelho, entre outros filhos, Fortunato Jacinto da Silva Botelho e Franklin José da Silva Botelho. São esses dois irmãos que vieram fixar residência em Paracatu, onde, através dos casamentos, perpetuaram o sobrenome na cidade com suas descendências, existentes até os dias atuais. Primeiramente, o coronel Fortunato, que se casou com Cândida Pimentel de Ulhôa e deixou os filhos: Osório, Aníbal, Anísio, José (Juca), Francisco (Chico), Mariana, Raul, Maria e Mário.

Veio, posteriormente, o engenheiro Franklin Botelho, que se casou com Maria Cândida Ulhoa Vilela, sobrinha da esposa do irmão, e deixou os filhos: Franklin, Áurea, Anita, Olga e Rosa, todos com descendência, exceto o filho varão Franklin.

Como conclusão, podemos afirmar que, sob o ponto de vista genealógico, Dona Beja é parente por afinidade dos Botelhos de Paracatu, sendo que sua filha Teresa Tomásia [é parente tanto dos Botelhos] de Araxá como de Paracatu, sendo prima em quinto grau de Fortunato e Franklin na tábua genealógica e prima em segundo grau de Fortunato e Franklin na escala genealógica de parentescos.

Por último, é curioso observar que Dona Beja estava fadada a manter vínculos afetivos com personagens ligados a Paracatu, pois sua segunda filha, Joana, seria filha do Dr. João Carneiro de Mendonça, nascido nesta cidade, filho do coronel de milícias João José Carneiro de Mendonça (natural de São Francisco de Paula, termo de Oliveira, MG) e de Josefa Maria Batista Roquete Franco (natural de Paracatu e radicados em Araxá na década de 1830). Mas essa é uma outra história.


Fontes: arquivos do autor.

TEXTO REVISADO EM 28/07/2026.

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