Pular para o conteúdo principal

OS ULHÔAS DE PARACATU E OS CRISTÃOS NOVOS

Por José Aluísio Botelho


INTRODUÇÃO - O sobrenome Ulhoa inicia em Paracatu, quando da chegada no último quartel do século dezoito, do então jovem militar de baixa patente Sancho Lopes de Ulhoa para servir no batalhão de caçadores do regimento de infantaria de milícias da jovem vila que florescia no noroeste mineiro. Lá, progrediu na hierarquia militar, alcançando a patente de tenente coronel; fixou-se no distrito do Rio Preto (atual Unaí), edificou sua fazenda das Lages,  aonde criou seus filhos. Um deles, Antônio Constantino Lopes de Ulhoa tornou-se genro de um dos principais da Vila, o Capitão - Mor Domingos José Pimentel Barbosa, ao casar com uma de suas filhas, Ana Pimentel Barbosa, originando o tronco dos Pimentéis de Ulhoa. Em 1824, suas assinaturas, pai e filho,  aparecem no auto de juramento da primeira Constituição do Império do Brasil ocorrido em Paracatu, denotando a inserção do sobrenome Ulhoa na elite da sociedade paracatuense de então. De outra filha, Mariana Lopes de Ulhoa, ao casar com o coronel Manoel Gonçalves dos Santos, um dos fundadores do arraial de Santana dos Alegres ( hoje João Pinheiro), provém o tronco dos Gonçalves de Ulhoa de João Pinheiro.
A INQUISIÇÃO – Os decretos de expulsão dos judeus da Espanha e Portugal, com o objetivo de eliminar o judaísmo ibérico, assinados pelos reis católicos Fernando e Izabel (1492) e pelo Rei Dom Manuel I(1496), bem como a conversão em massa ao catolicismo como única maneira capaz de lhes salvar a vida, levaram ao aparecimento de fatos históricos e sociais, como o surgimento dos judeus conversos, cristãos novos ou marranos. Essa conversão forçada levou a um verdadeiro genocídio cultural entre os judeus, e à tarefa de mantê-los dentro das normas impostas pela igreja e evitar um retorno à “Lei Mosaica”, passa a ser a missão primordial do Santo Ofício da Inquisição.
As idas e vindas sucessivas de uma religião à outra, deram lugar a momentos de sincretismo religioso e ambivalência entre eles. Dentro das famílias convertidas, há inúmeros casos de membros que seguiram caminhos opostos: uns professando o cristianismo com convicção, e outros voltando ao judaísmo na primeira oportunidade que aparecesse.
ORIGEM DA FAMÍLIA - Para tentar estabelecer uma relação direta entre essa família e sua origem cristã nova, vamos voltar mais atrás no tempo, primeiramente com as definições dos significados onomásticos:
LOPES – derivado de Lobo (do latim lupus), esse cognome é largamente encontrado entre os cristãos novos;
ULHOA – de Uxua, Essua, formas adaptadas ou corrompidas de Yehoshua. Sugere – se Ucha provindo do hebraico hursha, que significa “floresta”. Outra possibilidade é que esse sobrenome se origina do rio Ulla, na Galícia, que passou a ser Ulló (olho), depois Ulloa e em Portugal, Ulhoa e também Ilhoa.
Pois bem, o primeiro Ulhoa que se tem notícia e que viveu pelos anos de 756, dono das terras do rio Ulla, de origem visigótica, foi Dom Férnan Sanches de Ulló. A partir dele vamos encontrar ao longo de toda a idade média, vários Fernão, Lopo, Sancho, Vasco e Diogo Lopes de Ulloa a se sucederem na cadeia familiar ao longo do tempo até chegarmos ao século XVI. A partir de 1492, iniciou-se na Espanha, com a Inquisição, a perseguição e expulsão dos judeus, ocorrendo uma fuga em massa para Portugal, Holanda e Alemanha. Já em Portugal, o nome se corrompeu para Ulhoa e detectamos um Diogo Lopes de Ulhoa, na localidade de Alter do Chão na divisa com a Espanha, onde possuía um Morgado e era fidalgo da casa real com brasão de armas. Quando a América se abre para os europeus, inicia-se também a imigração dos cristãos novos para o Brasil colônia, notadamente para a Bahia, onde se tornaram senhores de engenho no recôncavo baiano, grandes negociantes e mercadores. assim como funcionários da administração do reino no Brasil, e dentre esses imigrantes, os Lopes de Ulhoa. Não encontramos referência a essa família em outras regiões do país nessa época. Em Salvador, então capital do Brasil colônia, também vamos encontrar diversos homônimos familiares, tais como Diogo, Duarte, Lopo, Antônio, etc., que pertenciam à elite político – cultural e econômica da cidade, ocupando altos cargos na estrutura administrativa da colônia.
Vamos traçar sucintamente o perfil de alguns deles:
DIOGO LOPES DE ULHOA – Acompanhou o embaixador Teles Faro à Holanda, como uma espécie de assessor econômico, tornando – se o principal interlocutor de De Groot ( Pensionário holandês ). Sua experiência em assuntos brasileiros e seus contatos oficiais no Reino eram inestimáveis.
Membro de uma família de CRISTÃOS NOVOS baianos, proprietária de engenho no Recôncavo e pertencente ao grupo de banqueiros MARRANOS que financiava a monarquia espanhola desde os tempos do conde – duque de Olivares. Ele será o residente de Portugal em Haia de 1663 a 1669;
ANTÔNIO LOPES DE ULHOA – A partir de 1661, se tornou proprietário do cargo de Provedor – mor da Fazenda Real no Brasil, legado por seu pai, sendo considerado dedicado servidor, que entrou rico no cargo e saiu pobre. Alternou essa provedoria com seu filho, outro Diogo Lopes de Ulhoa, durante vinte anos.
DIOGO LOPES DE ULHOA (Homônimo) – Senhor de engenho, mercador e exportador de açúcar, homem de confiança do Governador Diogo Luís de Oliveira. Sua família já se encontrava na Bahia desde o século XVI e sobressaiu na vida baiana até fins do século XVII e início do XVIII. Foi sempre vigiado pelo Santo Ofício, sendo denunciado inúmeras vezes, mas escapou ileso do Tribunal da Inquisição, porém, vários membros de sua família foram processados e queimados.
OUTROS CRISTÃOS NOVOS DENUNCIADOS (1646) - Duarte Rodrigues de Ulhoa e seus filhos Lopo, Manuel Vaz de Gusmão e Teresa, esta queimada em auto da fé.
Vale a pena citar também o processo de ANDRÉ LOPES DE ULHOA:
Processo nº. 5391; inquisição de Lisboa; origem: cristão novo; prisão: 1619; idade: 48; natural de Lisboa e morador em Peru açu, Bahia: estado civil: casado com Ana da Silveira, cristã velha; ocupação: senhor de engenho; crime: JUDAÍSMO.
Sentença: cárcere e hábito penitencial perpétuo sem remissão, com confisco de bens; auto da fé em 4/8/1621; apresentou-se no Tempo da Graça.
O SOBRENOME EM MINAS GERAIS – Já no século XVIII, encontramos os Lopes de Ulhoa estabelecidos em Vila Rica (Ouro Preto), na figura de outro Duarte Lopes de Ulhoa, natural de Salvador, Bahia, formado em Cânones na Universidade de Coimbra. Lá se casou com Rosa Joaquina de Figueiredo Feio em 1751, e é o tronco da importante família Ulhoa Cintra, com ramificações em São Paulo, bem como dos Ulhoas de Paracatu, na figura do Coronel Sancho Lopes de Ulhoa, filho do mesmo Duarte acima mencionado. Aqui também vamos encontrar diversos homônimos tais como Adelina, Mariana, Ana, Izabel, Sancho etc., que se repetem em Paracatu.
CONCLUSÃO – Neste breve artigo, tentamos traçar a trajetória dessa família ao longo do tempo, desde a península Ibérica até Minas Gerais, onde em Paracatu ela continuou com extensa descendência até os dias atuais. Não encontramos evidências de práticas judaicas desse tronco paracatuense, seja em âmbitos familiares ou em sinagogas, que, aliás, nunca existiram em Paracatu, certamente porque eles já eram católicos praticantes, mas, há fortes indícios deles serem realmente descendentes de cristãos novos, até se levarmos em conta a repetição dos nomes, que era fato comum entre a parentela dos cristãos-novos, o que ocorre ao longo da cadeia genealógica da família Lopes de Ulhoa.
Mas, será que podemos relacionar nossas origens judaicas através do estudo dos nomes e sobrenomes?
Além do já exposto acima e analisando as genealogias dos acusados pela inquisição do Santo Ofício, cujos processos se encontram arquivados na Torre do Tombo, em Portugal, e os nomes das pessoas das famílias envolvidas, bem como a presença de uma outra característica comum entre os judeus, os casamentos endogâmicos, e por consequência o aparecimento dos sobrenomes compostos usados pelos seus descendentes, podemos afirmar que a resposta é afirmativa.
Outro fator relevante a ser considerado é quanto à rota migratória da Bahia para Minas Gerais, através do sertão e do rio São Francisco, e como é sabido Paracatu teve intenso comércio de mercadorias e de gado com Salvador e outras vilas baianas e consequentemente grande fluxo migratório naquela época. São João Del Rei e Ouro Preto eram também polos de migração interna em direção ao noroeste mineiro, através da Picada de Goiás, o que ajuda a reforçar os indícios acima mencionados.
Um estudo mais aprofundado seria muito importante para aqueles que se interessam pela história das famílias. A ponta do véu está levantada.
 Para saber mais: Coronel Sancho Lopes de Ulhoa

Bibliografia consultada:
1 – Cristãos Novos na Bahia, Anita Novinsky, Ed. Perspectiva, 2ª. edição, 1992;
2 – Inquisição: prisioneiros do Brasil, Anita Novinsky, Ed. Expressão e Cultura, 2002;
3 – A Saga dos Cristãos – Novos, Joseph Eskenazi Pernidji, Imago editora, 2005;
4 – O Negócio do Brasil, Evaldo Cabral de Melo, Ed. Topbooks, 2ª edição, 1998;
5 – Genealogia Paulistana, Título Oliveiras, Luiz Gonzaga Silva Leme, edição esgotada; obra rara disponível em bibliotecas;
6 – Genealogia dos Cintra, Monsenhor Antônio Cintra, obra rara e esgotada;
7 – Arquivo pessoal.
8 – Ministério da Fazenda – site: www.receita.fazenda.gov.br/memoria;
9 – Torre do Tombo on line – www.ttonline.iantt.pt.
10 - Familysearch.org.

Escrito em março de 2007, e revisitado em 2014 com correções no texto. Atualização em 2017.

Nota: por se tratar de texto sobre genealogia, as correções e acréscimos são necessárias, de acordo com o dinamismo das pesquisas, propiciando novas descobertas acerca dos indivíduos e seus troncos familiares.

Postagens mais visitadas

NOTAS GENEALÓGICAS - PEREIRA MUNDIM

Por Eduardo Rocha
Família originária de Mondim de Bastos, Vila Real, norte de Portugal.

1- Joaquim Lourenço Mundim, casado com Perpetua Leocádia Pereira de Barros, filha legítima do capitão José Pereira de barros, natural da cidade de Braga, Portugal e de Maria Antunes Claro; neta paterna de Manoel Antônio Pereira de Barros e de Antônia da Costa. Família miscigenada na origem em Paracatu.

Filhos descobertos:

1-1 Mathias Lourenço Mundim, falecido em 08/12/1834; casado com Lúcia de Sousa Dias.
Inventário: 2ª Vara 1835/1836.

Filhos:

1-1-1 Maria de Sousa Mundim, 7 anos;

1-1-2 Elias de Sousa Mundim, nascido em 1829 e falecido em 26/09/1879; casado duas vezes: 1ªvez com Maria Leocádia da Conceição em 29/04/1855:
"Aos vinte e nove de abril de mil oitocentos e cincoenta e cinco feitas as diligencias do estillo na igreja matriz desta freguesia de Santo Antonio da Manga Bispado de Pernambuco, o reverendissimo senhor provissor em presença das testemunhas Vicente Jose Chispiniano e João Caetan…

DONA BEJA E O TESTAMENTO DO PADRE

O vigário Francisco José da Silva foi um padre típico do sertão mineiro: fazendeiro abastado, político influente, e mulherengo, como quase todos os padres de seu tempo. Teve participação decisiva na evolução político-administrativo e social da Araxá na época em que lá viveu, entre 1815 e 1845, ano de seu falecimento. Participou, mesmo que discretamente, da Revolução Liberal em Araxá, apoiando seus sobrinhos liberais, liderados pelo coronel Fortunato José da Silva Botelho, no embate político que se travava em Minas nos anos de 1842. Legitimou em cartório em 1831, três filhos, a saber: Pedro Amado de São Paulo, Placidina Maria de Jesus, e Teresa Thomásia de Jesus. Antes, em Dezembro de 1826, ele dita seu testamento escrito pelo advogado paracatuense João de Pina e Vasconcelos, onde declara não ter herdeiros descendentes (sic) e/ou ascendentes por serem falecidos seus pais, e que nomeava como seus herdeiros Antonio Machado de Morais, Pedro Amado de São Paulo, e Teresa Thomásia de Jesus, …

CONEXÃO PARACATU/ARAXÁ: ENTRELAÇAMENTO DAS FAMÍLIAS BOTELHO – JOSÉ DA SILVA – AFONSO DE ALMEIDA - MACHADO DE MORAES E CASTRO - PACHECO DE CARVALHO

Por José Aluísio Botelho
A LONGA JORNADA
O Tenente Gregório José da Silva e Dona Tereza Tomásia de Jesus Botelho, se encontraram em 

OS SANTANA DE PARACATU - MG

Texto José Aluísio Botelho
Pesquisas Eduardo Rocha e Mauro César da Silva Neiva
Família iniciada em Paracatu com o casamento do tenente Joaquim José de Santana e Dona Maria Peixoto.

MARECHAL PEDRO DE ALCANTARA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE

Nascido em 26 de novembro de 1883 em Salvador, Bahia. Filho do Desembargador Francisco Manoel Paraíso Cavalcante de Albuquerque e Aragão, dos Caramurus da Bahia, também natural de Salvador, e de Dona Ana Pimentel de Ulhoa, natural de Paracatu, Minas Gerais. Fez o curso primário, a começo em Salvador, depois na capital de Goiás, novamente em Salvador, e, por fim, em Uberaba, no estado de Minas Gerais. A razão explicativa desse ciclo do seu curso primário está em que, Desembargador da Relação da Bahia, foi seu pai em 1887 removido para a Relação de Goiás, donde retornou a da Bahia em 1889, aposentando-se em seguida e indo residir em Uberaba, onde faleceu em 1899. Justiça una no tempo do Império, os magistrados ficavam sujeitos a tais remoções, enfrentando os maiores sacrifícios dadas às distâncias a vencer, sem meios rápidos de locomoção. Vale salientar que seu pai fez-se acompanhar de sua mãe e seus filhos nessas longas viagens. Terminados os estudos primários em Uberaba, com 11 anos de …

O CAPITÃO MANOEL PINTO BROCHADO E SEUS DESCENDENTES (Para Paulo Brochado - in memorian)

JOSÉ ALUÍSIO BOTELHO e                                                                 EDUARDO ROCHA                   
O DISTRITO DE RIO PRETO
A povoação do Rio Preto era antiga. Denominada de Ribeira do