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FESTA DE ACLAMAÇÃO DE DOM JOÃO VI EM PARACATU ( 1817)

Por José Aluísio Botelho

Ao analisarmos um ofício enviado pela câmara de vereadores de Paracatu ao Governador da Capitania Manuel de Portugal e Castro, comunicando as festividades ocorridas na Vila por ocasião da aclamação de D. João VI, como rei de Portugal, após a morte de sua mãe D. Maria I, em abril de 1817, deparamos com elementos preciosos para compreendermos a sociedade colonial local da época, através de suas manifestações culturais, religiosas e profanas. A notícia chegou à Vila em 20 de dezembro de 1816, porém os festejos só foram realizados entre os dias quatro e dezesseis de abril de 1817, pois as festas duraram doze dias ininterruptos.
A boa nova foi anunciada “tão logo se patenteou o ofício”, “procedeu-se a publicar a faustíssima notícia da aclamação Régia de Nosso Augustíssimo e Amabilíssimo Soberano que se havia celebrar no dia designado”, por meio de um bando (aviso) lançado ao som de “caixas e instrumentos militares”.
“Uma guarda Miliciana puxada por um Tenente, e vários oficiais inferiores condecorava este ato”. O escrivão da Câmara fez participar ao Povo com expressões muito persuasivas com quanto fervor e alegrias deviam todos concorrer, para os festivos aplausos de um tão solene dia, dando a conhecer pelas demonstrações externas os testemunhos sinceros da sua interna fidelidade e amor devido à tão amável Soberano (sic). Finalizado o edital, passou-se aos preparativos para a festa, com a iluminação das ruas e casas, que persistiu por quatro noites seguidas, sem que houvesse uma só morada fora do costume. “No frontispício da Casa da Câmara preparou-se artificialmente um prospecto luminoso, no remate do qual estava retratado fielmente um busto em efígie do Monarca (denotando a presença simbólica do soberano ausente), com um letreiro de luzes, em que se lia distintamente esta epígrafe – Viva EL Rey Nosso Senhor, O Senhor Dom João Sexto.”
A festa propriamente dita começou no dia prefixado para a celebração, com a arrumação nas horas competentes no “espaçoso largo da Igreja da Matriz, dos três regimentos milicianos com numerosa gente de armas e o luzido asseio da soldadesca fazia uma vista brilhante e aparatosa.”. Disposto tudo em ordem, celebrou o reverendo pároco, missa solene com “o Senhor Exposto em Trono ricamente iluminado” com assistência de todo o clero do lugar, nobreza e povo em grande “concurso”. Após a missa, o vigário geral forâneo da comarca passou a recitar a “Oração Gratulatória”, seguida do hino de ação de graças pelo clero presente, e música, “dirigido cordial e devotamente ao Eterno pela conservação da Augusta Pessoa, sua Real Família, e prosperidade de todo o Reino”.
Terminado o ato religioso e após a detonação de fogos pelos regimentos militares “nas bem reguladas descargas”, o “júbilo não pode conter-se, manifestava-se na face de todos sensivelmente” (sic). Iniciaram-se então os espetáculos populares por doze dias continuados, tais como cavalhadas, touradas, óperas, fogos, danças e brincos (brincadeiras) divertidos “que entretiveram em todo este tempo o povo exultante”. Nesse contexto há uma digressão, quando as autoridades tentam justificar não ter sido uma festa mais rica e pomposa devido à pobreza do poder público, “apesar de se poder suprir decentemente com a despesa indispensável para o festejo gratulatório”. Todo o mais aparato que entreteve a expectação popular “foi agitado pelo Capitão Mor Domingos José Pimentel Barbosa e o Tenente Coronel Antônio da Costa Pinto que nimiamente desvelados ajudaram a fazer mais pomposos os aplausos públicos”.
Termina o ofício com as meras formalidades de praxe trocadas entre autoridades, com datação de Paracatu do Príncipe em Câmara de 9 de Maio de 1817.
Esses registros de festas públicas, com participação popular, nada mais são que relatos da vida sócio-cultural das comunidades, principalmente ao apresentarem detalhes preciosos tanto da organização do cotidiano, os gostos de divertimento, como das hierarquias sócio-econômicas do lugar. São momentos em que o coletivo é vivido em sua plenitude e, por isso, advém as interações e conflitos sociais.
Fonte: RAPM, CD_ROOM nº2.is.
Brasília, abril de 2007.

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