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POVOADORES DO OURO - SÉC. XVIII

Por José Aluísio Botelho

Em um importante manuscrito emanado da Guardamoria das Minas de Paracatu, datado de 1769, a pedido do Conde de Valadares, então Governador e Capitão-general da Capitania de Minas Gerais, se faz a relação de quantos mineiros, sua escravatura e a quantidade de datas minerais que eles possuíam. São 95 pessoas, a maioria com sócios, que controlavam a exploração de ouro no então Arraial de Paracatu. Alguns deles eram pioneiros do tempo do comunicado oficial dos descobertos das minas, outros por compra de datas minerais, o que era recorrente. Dentre eles, nota-se a presença de muitos padres, que arregaçaram as batinas, ávidos em encontrar o precioso e vil metal, bem como de ex-escravos, pardos e negros forros, que a despeito de suas condições anteriores, mantinham seus escravos na prospecção das minas. O ouro extraído era predominantemente de aluvião, e os principais veios se encontravam nos morros Cruz das Almas e de São Gonçalo, e nos córregos: Rico, Macacos, Babão, São Domingos, Santo Antonio, e Santa Rita. Havia também referências a várias chapadas, como a dos Caldeyras, do Guerra, do Espírito Santo, e do Padre Belchior. Desses povoadores pioneiros, identificamos alguns que foram troncos de famílias paracatuenses. Outro dado importante foi o intenso movimento de compra e venda de direitos de exploração das minas, e para isso, havia dois Tabelionatos de registros das minas: um no arraial de São Domingos e outro no arraial do Córrego Rico. Por fim, e não menos importante, são os relatos dos mineradores acerca do esgotamento da lavras já naquele ano de 1769, ou seja, um quarto de século depois dos descobertos, tornando as terras inúteis para a garimpagem. Assim muitos dos que ficaram, passaram à atividade agropastoril, com a criação de grandes propriedades rurais na região de Paracatu.
Listamos abaixo, os mineiros povoadores, com o número de escravos, de datas e a localização delas, acrescida de algumas notas e observações.
(1) - Gaspar da Silva, com 42 escravos e 82 datas minerais na lagoa de Santo Antônio;
(2) – João Pires Viana, com 10 escravos e 33 datas minerais no córrego Rico;
(3) – Capitão-mor Clemente Simões da Cunha, com 120 escravos e 130 datas minerais no córrego São Domingos;
Nota: povoador pioneiro de 1744, abastado, viveu no arraial de São Domingos, onde foi Capitão- mor. Foi o pai do aclamado dramaturgo, músico e poeta padre Domingos Simões da Cunha;
(4) – Furriel de Dragões Manoel Lopes Saraiva, com 41 escravos e 102 datas minerais no córrego Rico;
(5) – Capitão Pedro Pereira Dias Raposo, com 60 escravos e 70 datas minerais no córrego Rico e morro Cruz das Almas;
Observação: pioneiro de 1744;
(6) – Capitão Manoel Dias Veloso, com 26 escravos e 26 datas minerais na chapada dos Caldeiras;
(7) – Antônio Neto Carneiro Leão, com 22 escravos e 16 datas minerais no córrego Rico;
Nota: foi o avô dos Marqueses de Paraná;
(8) – João Rodrigues de Melo, com 14 escravos e 20 datas minerais no córrego São Domingos;
Nota: Dele descendem o ramo mineiro dos Andrada, pela via materna;
(9) – Antônio Luiz Braga, com 24 escravos e 50 datas minerais nos córregos: Rico, Babão e Espírito Santo
Observação: era pardo forro. Datas herdadas do Alferes Antônio Bernardes Braga, mineiro abastado;
(10) – Máximo Barbosa Pinto, com 6 escravos e 25 datas minerais na chapada do Espírito Santo;
(11) – Alferes Tomé Alves de Araújo, com 50 escravos e 17 datas minerais nos córregos Babão e São Domingos;
(12) - José Gomes Brandão, com 50 escravos e 5 datas minerais no córrego Rico;
(13) - Alferes Alberto Duarte Ferreira, com 65 escravos e 40 datas minerais no córrego Rico;
Obs.: compra feita ao Padre Antônio Mendes Santiago, em 1767;
Nota: foi um dos vereadores eleitos na ocasião da instalação da Vila em 1799;
(14) – Furriel de Cavalaria Antônio Souto Maior, 37 escravos e 70 datas minerais na chapada do Espírito Santo;
(15) – Lourenço de Sá Souto Maior, com 80 escravos e 23 datas minerais no morro Cruz das Almas;
(16) - Reverendo Padre Dom Braz da Cunha Pereira, com 45 escravos e 50 datas minerais nos córregos Rico e São Domingos;
Nota: padre pioneiro de 1744, muito rico, dono de sesmaria, irmão do capitão de dragões Simão da Cunha Pereira; seu inventário está catalogado no Arquivo Público Municipal de Paracatu;
(17) - Padre Bento da Costa Barros, com 12 escravos e 2 datas minerais na chapada dos Tavares;
(18) – Padre João de Souza Marques, com 12 escravos e 32 datas minerais na chapada dos Caldeiras e padre Belchior;
(19) – Dr. Antônio Gomes Diniz, com 43 escravos e 80 datas minerais nos córregos São Domingos e Santo Antônio;
Nota: mineiro rico e letrado (era advogado) liderou a lista de moradores na representação feita contra os desmandos do padre Antônio Mendes Santiago;
(20) – Capitão José Barbosa de Brito, com 38 escravos e 20 datas minerais no córrego Rico; pioneiro de 1744;
(21) - Manoel Gomes Diniz, com 20 escravos e 88 datas minerais nos córregos São Domingos e Santo Antônio;
Obs.: era irmão e sócio de Antonio Gomes Diniz (19);
(22) - Capitão Domingos de Oliveira da Mata, com 19 escravos e 50 datas minerais no córrego São Domingos;
(23) – Manoel Pereira da Malta, com 12 escravos e 15 datas minerais no córrego São Domingos e na chapada dos Caldeiras;
(24) - Manoel Pereira Botelho, com 5 escravos e 7 datas minerais no córrego São Domingos;
(25) - Capitão José Rodrigues da Silva, com 32 escravos e 19 datas minerais no córrego São Domingos;
(26) – Francisco João de Carvalho Lima, com 37 escravos e 20 datas minerais no córrego São Domingos e na chapada do padre Belchior;
(27) – Manoel Caetano de Moraes, com 13 escravos e 4 datas minerais no Tavares;
Nota: foi o primitivo dono da fazenda Caetano, que mais tarde pertenceu ao Dr. Sérgio Ulhoa. Deu seu nome à Rua Manoel Caetano;
(28) – Jerônimo Gomes, com 12 escravos e 6 datas minerais no córrego Rico;
(29) – Padre Antônio Ferreira de Noronha, com 38 escravos e 78 datas minerais na chapada dos Caldeiras;
Nota: adquiriu as datas minerais que pertenceram a José Rodrigues Fróes, “descobridor dessas minas”, no córrego São Domingos;
(30) – Antônio Machado da Silva, com 37 escravos e 48 datas minerais nos córregos Rico e Babão;
(31) – Alferes Manoel Gonçalves de Matos, com 24 escravos e 38 datas minerais no córrego São Domingos e no morro Cruz das Almas;
(32) – Guarda mor Manuel José da Cunha, com 8 escravos e 38 datas minerais no morro de São Gonçalo e no córrego São Domingos;
Nota: pioneiro de 1744 casou em segundas núpcias com Helena Rodrigues Fróes, esta sobrinha do descobridor das minas José Rodrigues Fróes, filha de Salvador Fróes;
(33) – Domingos da Cunha Branco, com 7 escravos e 38 datas minerais no córrego São Domingos;
Nota: pioneiro de 1744, dele descende Maria da Cunha Branco, companheira do padre Joaquim de Melo Franco, com quem teve 7 filhos;
(34) – Luiz Pereira do Amorim, com 12 escravos e 24 datas minerais no morro Cruz das Almas;
Obs.: pardo forro;
(35) – Antônio Alves de Magalhães, com 20 escravos e 60 datas minerais no morro Cruz das Almas;
(36) – Manoel de Lima Braga, com 32 escravos e 50 datas minerais no morro Cruz das Almas;
(37) – João Borges Tavares, com 50 escravos e 168 datas minerais nos córregos: Rico e São Domingos, e no morro Cruz das Almas;
(38) – Paulo Pacheco, com 12 escravos e 38 datas minerais no morro Cruz das Almas;
(39) – Domingos Rodrigues Guimarães, com 20 escravos e 15 datas minerais na chapada do Espírito Santo;
(40) – Manoel Claro Antunes, com 20 escravos e 83 datas minerais no morro Cruz das Almas;
(41) – Dr. Luiz Lopes de Carvalho Frazão, com 58 escravos e 70 datas minerais nos córregos Rico e São Domingos, e no morro de São Gonçalo;
(42) – João de Faria Rocha, com 12 escravos e 20 datas minerais no morro Cruz das Almas;
(43) – Guilherme da Silva Pereira, com 32 escravos e 285 datas minerais nos córregos: Rico, São Domingos, Santa Rita, e na chapada de São Gonçalo;
(44) – Capitão Silvestre Teixeira da Costa, com 20 escravos e 15 datas minerais na chapada do Espírito Santo e no morro Cruz das Almas;
(45) – Benedito Rodrigues, com 03 escravos e 13 datas minerais no córrego Santo Antonio e no morro Cruz das Almas;
Obs.: preto forro;
(46) – Manoel de Miranda, com 18 escravos.
Explorava 12 datas no morro Cruz das Almas;
(47) – Sargento-mor Félix Gomes Caldas, com 16 escravos, explorava 27 datas minerais nos córregos: Rico (chapada dos Caldeiras), Santa Rita, Santo Antônio e no morro Cruz das Almas;
(48) – Sargento-mor Anacleto Tavares de Sampaio, com 34 escravos e 28 datas de terras no morro Cruz das Almas e no córrego São Domingos;
(49) – Capitão Francisco Tavares de Sampaio, com 33 escravos e 28 datas de terras minerais no morro Cruz das Almas;
Nota: mineiro abastado construiu a igreja do Amparo em 1768, segundo Olímpio Gonzaga. Ainda segundo OG, emprestou hum milhão, oitocentos e quarenta oitavas de ouro ao então Governador da Capitania de Minas Gerais, conde de Assumar 'sic';
(50) – Jerônimo Tavares de Sampaio, com 10 escravos e 28 datas no morro Cruz das Almas;
Obs.: os mineiros 48,49 e 50 eram irmãos e sócios nos garimpos;
(51) – Antônio Machado Guimarães, com 32 escravos e 10 datas nos córregos Babão e São Domingos, e no morro Cruz das Almas;
(52) – Manoel da Silva Rosa, com 4 escravos e 9 datas no córrego Rico e morro Cruz das Almas;
Obs.: preto forro;
(53) – Tomé Pinto do Rego, com 12 escravos e 6 datas minerais no córrego Soberbo, “que corta este arrayal e deságua no córrego Rico”;
(54) – Tenente Agostinho Pinto da Fonseca, com 10 escravos e 6 datas minerais.
Nota: Tomé Pinto do Rego e Agostinho Pinto da Fonseca eram irmãos e sócios. Este último faleceu em 1775 e deixou em testamento todos seus bens para outro irmão, o capitão Manoel Pinto Brochado, provável tronco dos Brochados de Unaí;
Obs.: a diversidade de sobrenomes entre irmãos era comum naquele tempo, portanto, todos são da família Pinto Brochado;
(55) – Francisco Pires do Rego, morador do arraial de Minas Novas, sócio dos precedentes, e provável parente;
(56) – José Gonçalves Torres, com 70 escravos e 385 datas de terras minerais nos córregos: Rico, São Lourenço ou Monjolos, e Capetinga;
Obs.: mineiro abastado;
(57) – Antônio da Silva Guedes, com 12 escravos e 20 datas nos córregos São Lourenço e São Domingos;
(58) – Padre Reverendo Francisco de Moura Brochado, com 5 escravos e 15 datas no morro Cruz das Almas;
Nota: era sócio com outros padres em 5 datas minerais no córrego Curtidor, que desagua no São Lourenço ou Monjolos;
(59) – Antônio Rodrigues, com 6 escravos e 10 datas minerais no morro Cruz das Almas;
Obs.: preto forro;
(60) – Manoel Luiz dos Santos Ferreira, com 10 escravos e 10 datas minerais nos córregos São Lourenço e Capetinga;
(61) – José Pedro, com 17 escravos e 70 datas minerais nos córregos São Lourenço, Ponte Alta, e Santo Antônio (Lagoa);
Nota: tinha engenho de cana, da compra que fez com outro sócio, do reverendo Dr. Antônio Mendes Santiago, por 25 mil cruzados, em 18 de Abril de 1766;
(62) – Francisco José de Oliveira, sócio do precedente;
(63) – João Mendes Teixeira, com 6 escravos e 6 datas minerais no córrego São Domingos;
Nota: por compra feita ao padre Santiago;
(64) – Antônio de Araújo Mesquita, com 70 escravos e 56 datas minerais no córrego Babão e no morro Cruz das Almas;
(65) – Coronel Teodósio Duarte Coimbra, pioneiro de 1744, com 90 datas minerais no córrego São Domingos. Escravatura não foi fornecida.
Nota: Coronel de infantaria auxiliar do distrito de São Luiz e Santana das Minas do Paracatu e de São Romão (AHU), companheiro do padre Santiago em suas escaramuças no sertão do São Francisco, obteve sesmaria na região do Rio Paracatu em 1728(APM). Era o Guarda-mor das minas em 1769 e assina o documento ora citado e descrito parcialmente. Homem rico e poderoso em seu tempo habitava e comandava juntamente com seus sócios os capitães Clemente Simões da Cunha e Pedro Alves Pereira, os arraiais de São Domingos e São Sebastião, onde possuíam lavras minerais. Olímpio Gonzaga o alcunhou de “o criminoso”, em seu livro Memória Histórica de Paracatu;
(66) – Capitão Domingos Carneiro Chaves, pioneiro de 1744, com 38 escravos e 50 datas minerais no córrego São Domingos;
(67) – Capitão Pedro Alves Pereira, pioneiro de 1744, com 70 escravos e 115 datas minerais nos córregos São Domingos, Santa Rita, Santo Antônio e Macacos;
(68) – Antonio Galrão da Silva, pioneiro de 1744, com 18 escravos e 33 datas minerais no córrego São Domingos e no morro Cruz das Almas;
(69) – Manoel de Faria do Vale, pioneiro de 1744, com 32 escravos e 20 datas minerais no córrego São Domingos;
(70) – Sargento-mor José Tomás de Faria, com 38 escravos e 20 datas minerais nos córregos Rico, Santa Rita e São Domingos;
(71) – Caetano Moreira de Sá, com 30 escravos e 122 datas minerais nos córregos São Domingos e Santa Rita;
(72) – José Alves dos Santos, com 17 escravos e 29 datas minerais nos córregos São Domingos e Santa Rita;
(73) – Sebastião José de Carvalho, pioneiro de 1744, com 10 escravos e 8 datas minerais no córrego São Domingos;
(74) – Capitão Bento de Souza Menezes, com 35 escravos e 156 datas minerais nos córregos da Contagem, Santa Rita e Santo Antônio;
(75) – André Moreira de Carvalho, morador da vila de Sabará, com17 escravos e 43 datas minerais no córrego São Domingos e no morro de São Gonçalo;
(76) – Luiz Furtado de Mendonça, com 10 escravos e 28 datas minerais no morro Cruz das Almas;
(77) – Diogo de Sousa Araújo, com 12 escravos e 24 braças de terra no córrego São Domingos;
(78) – Alferes Silvestre Souto Maior, com 4 escravos e 12 datas minerais no córrego São Domingos;
(79) – Manoel Pinto Rabelo, com 8 escravos e 10 datas minerais no córrego São Domingos e na chapada do padre Belchior;
Nota: tronco da família Pinto Rabelo;
(80) – Manoel Teixeira Filgueiras, com 10 escravos e 10 datas minerais no serviço do Capitão Domingos Carneiro Chaves;
(81) – Manoel Gonçalves da Fonseca, com 28 escravos e 22 datas minerais no morro Cruz das Almas;
(82) – Antonio da Rocha Marques, com 28 escravos e 10 datas minerais nos córregos São Domingos e Santa Rita;
(83) – Alferes Dionísio José da Silva, com 10 escravos e 32 datas minerais nos córregos Contagem dos Goiazes e Santo Antônio;
(84) – Tenente Manoel de Araújo Guimarães, com 33 escravos e 25 datas minerais no córrego Santo Antônio e na chapada do padre Belchior;
(85) – Antonio Teixeira de Araújo, com 49 escravos e 20 datas minerais no córrego Santo Antônio;
(86) – Francisco Teixeira Pinto, com 10 escravos e numero de datas não especificadas;
(87) – Antonio Cardoso, com 11 escravos e 3 datas no morro Cruz das Almas;
(88) – Gaspar Cardoso, com 3 escravos e 3 datas no morro Cruz das Almas;
(89) – Domingos dos Santos Toledo, com 17 escravos e 4 datas no córrego Babão;
(90) – Padre Estevão de Sousa Guimarães, com 35 escravos e 40 datas no córrego Rico;
(91) – Teodósio da Fonseca Machado, com 12 escravos e 5 datas no morro Cruz das Almas;
Obs.: preto forro;
(92) – Alferes Manoel Álvares Duarte, com 13 escravos e 6 datas minerais no córrego Santa Rita;
(93) – Capitão Antonio Francisco de Sousa, com 25 escravos e 58 datas minerais no córrego Santo Antônio;
(94) – Sargento-mor José dos Santos Pereira com 30 escravos e 22 datas na chapada dos Caldeiras e no córrego Santa Rita;
(95) – Caetano Pinto de Faria, com 20 escravos e 22 datas minerais no córrego São Domingos e no morro Cruz das Almas.
Fonte: Coimbra, E. Duarte – Descrição exata do Distrito da Guarda destas Minas de Paracatu, (...), S.L., 1769 – 10p. Manuscrito do "Acervo da Fundação Biblioteca Nacional – Brasil”.

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