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ANIVERSÁRIO DE PARACATU, O ARRAIAL IMAGINÁRIO E A LOUCURA

Por José Aluísio Botelho

Este texto é uma interpretação livre da história de Paracatu.
Oficialmente Paracatu comemorou 219 anos no dia 20 de outubro de 2017. Eu disse oficialmente, porque há alguns anos se deliberou que a data do aniversário da cidade deveria ser comemorada naquele dia em virtude do Alvará emitido por dona Maria I, a rainha louca, no dia 20 de outubro de 1798 incrustado em um rico pergaminho real. Não poderia haver tanta loucura nisso; nunca imaginaria que os nossos intelectuais do século vinte, seriam orates a tal ponto, jogando a existência do arraial de São Luiz e Santana das Minas do Paracatu às calendas, tornando-o uma povoação imaginária.
  Pois bem, um alvará criou a vila de Paracatu do Príncipe naquele ano, e no entendimento dos criadores de tal data de aniversário, ele foi o marco iniciador da cidade do mesmo nome. Ocorre que, durante um ano, pouco mais, a vila só existiu virtualmente no papel, sobrepondo ao arraial dito imaginário (criação nossa), porque ela só foi instalada em 18 de dezembro de 1799, em sessão solene presidida pelo juiz de fora Dr. José Gregório de Moraes que tomou posse aos 14 do dito mês e ano, também nomeado pela rainha, empossando os vereadores e o procurador da Câmara, bem como, definidos os seus limites geográficos. Toda esta pompa teve a presença da Nobreza e Povo como se dizia, de homens e mulheres pioneiros que forjaram o arraial imaginário, pessoas que viraram pó nas brumas da história. Aí uma indagação: a data de fundação de uma localidade se dá a partir da expedição de um Alvará, ou quando da instalação da mesma através de ato jurídico perfeito?    
  Antagonizando: ora veja, neste interregno de doze meses e uns dias, a partir da fundação da vila de Paracatu do Príncipe em 20 de outubro de 1798, ela só existiu no papel (olha a redundância), e, em paralelo, na vida real coexistiu com o arraial de São Luiz e Santana ou simplesmente arraial de Paracatu, como aparece grafado em muitos documentos oficiais, e que vivia intensamente tanto política como administrativamente. Mas como, estás louco?
  Talvez seja mais ignorância histórica do que loucura, mas vamos pelo lado da loucura, caminhar mais no tempo passado: em 1743 um garimpeiro sonhador acompanhado de dois escravos, pretos velhos deparam com um ribeirão caudaloso em meio à mata densa, que ele batizou de São Luiz e Santana, provavelmente santos de sua devoção, e a presença de muito ouro de aluvião as suas margens: era a recompensa de muito tempo de procura pelo eldorado. Em seguida, no mês de dezembro ele comunica por carta pessoal ao então governador Gomes Freire de Andrade o seu feito, robustecida por outra carta escrita pelo seu pai ao dito governador; vamos dar nome aos personagens: José Rodrigues Fróes, o descobridor; coronel Pedro Rodrigues Fróes, seu pai. Os nomes dos pretos velhos jamais saberemos – naquele tempo, negro não era gente, eram bens semoventes. Quanta imaginação, José Aluísio!
  Pois bem, a loucura continua azucrinando minha mente: em 24 de junho de 1744, o governador em questão, comunica através de um bando ou Alvará aos quatro cantos ou aos quatro ventos, como queiram, a boa nova, ou seja, novos descobertos no continente do Paracatu, como se denominava à época a região do grande rio, já conhecido bem antes dos descobertos. Imediatamente, inicia-se mais uma interminável corrida do ouro na capitania das Minas Gerais. Três meses após o comunicado, já havia dez mil almas na povoação que surgia com ímpeto, com o mesmo nome do ribeirão, São Luiz e Santana. Na ocasião, o descobridor relata que o povo, muito sabiamente, por antonomásia, chamou o ribeirão de “Corgo Rico”, ou simplificando a língua, o apelidou de “Corgo Rico”.  
  Agora de peguei: o arraial iniciou-se a com a expedição de um ato administrativo do governo de então, assim como o de 1798, não é uma contradição? Não. Imediatamente a estrutura administrativa foi montada pelo governo português, sendo enviado um velho e prestimoso burocrata reinol, Rafael de Sousa e Silva, nomeado Intendente, para tomar conta do lugar. Já naquele ano, além da intendência, funcionava a Câmara do Senado, como grafado nos documentos. Estava fundado o “imaginário” arraial de Paracatu, esquecido pelos nossos oficialistas. E olha que em 1745, a turma imaginária já pretendia sua elevação a vila e cabeça de comarca, veja que despautério. Continuas viajando em completa paranoia, José Aluísio!.
  Acho que sim: veja bem, em sequência, junto com a câmara, são estruturados o poder legislativo com a eleição dos vereadores, o poder político; o poder judiciário, tendo como primeiro procurador o doutor Luiz Lopes de Carvalho Frazão, bacharel em Cânones pela Universidade de Coimbra, formado em 1735 (sim, no arraial imaginário tinha doutor); e o poder militar, com a instalação de dois regimentos já em 1744; para ilustrar mais, o Governador, no ano de 1745, cria uma nova companhia militar, a de ordenança, com o seguinte argumento: “Gomes Freire de Andrade resolve por bem criar mais uma companhia do regimento do continente, devido ao grande número de Povo (sim, em maiúscula) que concurreo para o Arraial de Sam Luiz e Santa Anna novo descuberto do Paracatu (povo? Que povo?), nomeando capitão mor de ordenança a Felisberto Caldeira Brandt, homem de numerosa escravatura e muitas minas", para pôr ordem no arraial e na turba de garimpeiros; começam o concubinato de brancos com negras, e a consequente miscigenação através dos filhos que nascem aos borbotões, os casamentos religiosos, e a constituição de famílias pioneiras do arraial.
  Tudo isso na visão dos nossos oficialistas nunca houve, porque, redundantemente, Paracatu foi fundada em 1798, 20 de outubro, chique, em um vistoso pergaminho; o que fazer com o português Antônio Ferreira Braga, o grande construtor de então, o Odebrecht do arraial de São Luiz e Santana das Minas do Paracatu, sem propina é claro; será que o pioneiro Antônio Dias de Carvalho, previu em exercício de vidência, que no futuro surgiria uma civilização com o nome de Paracatu, e em sua homenagem, acrescentou o gentílico “Paracatuense” como sobrenome de seus filhos? Sim, o Dr. Carlos Dias de Carvalho Paracatuense, nascido em 1747, pouco mais ou menos, doutor em Coimbra em 1770, padre anos depois, ordenado no próprio arraial pela cúria local, e seus irmãos dona Agostinha e Antônio Dias de Carvalho Paracatuense, em exercício imaginativo do pai, anteciparam tal acontecimento; e o que não dizer do Dr. Francisco de Melo Franco, médico igualmente formado em Coimbra, notável escritor, tanto de temas ligados a sua profissão, quanto a temas literários; o Dr. José Antônio Soares de Sousa, formado em medicina na Universidade de Paris, França, médico do exército de Napoleão, e que retornou a pátria estabelecendo em São Luiz do Maranhão, e ali morreu ao cair literalmente de um cavalo após assistir um doente na zona rural. Foi o pai do Dr. Paulino José Soares de Sousa, um dos mais brilhantes jurisconsulto do segundo império, político de estirpe, agraciado por merecimento com o título de Visconde de Uruguai.
  Citamos apenas alguns, pois a lista de filhos do arraial imaginário é enorme, forjadores de um povo com características raciais próprias: um caldeamento sui generis, na feliz caracterização do professor Oliveira Melo; até o Santo Ofício da Inquisição, enxergou com seus braços implacáveis o arraial imaginário, investigando, denunciando e julgando pessoas consideradas hereges e lá viventes; menos a historiografia oficial.
   Finalmente, na segunda metade do século dezoito, entre 1772 e 1778, passou pelo arraial imaginário o Governador de Mato Grosso Luís de Albuquerque e Melo, que o descreveu como um arraial de 5000 almas, com lindos campos na vizinhança (almas imaginárias?). Aí, você chegou ao limite máximo de sua insanidade, isto é uma verdadeira elegia à loucura, concordas?
  Last but not least, a loucura pode ser sanada: a história tem data delimitada de seu começo, têm um marco demarcatório, no que concordo; que a história deve ser contada a partir de evidências, relatada e escrita que permitem fazer a narrativa mais aproximada dos acontecimentos, e aí, também concordo. Porém, ela está nas fronteiras do visível e invisível, seu objetivo é obter uma visão real das coisas, mais abrangente e profunda. Segundo o grego Tucídides, a história é verdadeira ou ela não é história. O trabalho do historiador consiste em escrever o passado a partir de fontes, vestígios, com metodologia, o que não foi feito. Quero acreditar que os oficialistas, ao escolher a data do Alvará de 1798, pensaram tão somente em criar uma data comemorativa, no que não concordamos, porque a distância entre o surgimento, fundação do arraial e a instituição da data de aniversário da cidade é enorme: 54 anos de história de um arraial pujante, crescendo com rapidez, em decorrência da opulência do ouro, e paralelamente, com atividade agropastoril com a fundação de fazendas de gado e de produção de alimentos em toda a região em expansão, foram jogados no limbo da história, e isso no meu sentir, é inadmissível sob o ponto de vista historiográfico. Diante desses fatos marcantes do arraial, aqui relatados de maneira superficial e resumida e que não foram considerados na ocasião da escolha da data de fundação da atual cidade de Paracatu, a história tem que ser recontada; nossos historiadores precisam tratar a alergia que têm aos arquivos, como disse o historiador Marco Antônio Vila certa vez, e abraçar os velhos papéis carunchados e carcomidos, na feliz denominação dada aos manuscritos por Olímpio Gonzaga, e que estão dormitando nos arquivos locais, nacionais e portugueses, e reescrevê-la.
Como diria aquele humorista: que loucura, meu! A loucura é redundante.

Parabéns Paracatu pelos seus 273 anos de existência.

Fontes: inúmeras.

Comentários

  1. Anônimo9:08 PM

    Doce e meiga cidade! Meu berço que nunca esqueço! Ah , qtas saudades! Deixo meus parabéns a todos que ajudam fazer nos unidos nestas belas palavras que ! Hoje já distante daí , curvo me á deixar um abraço carinhoso a todos q conseguem tra lá ainda mais hospitaleira é bela! Ahhh como amo vc ! Minha amada terra!

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