Pular para o conteúdo principal

A Alvorada Republicana em Paracatu: Transição Política, Educação e Sociedade (1889–1892)


Por José Aluísio Botelho

Com o fim da Monarquia e a Proclamação da República no Brasil, o Governo Provisório instaurou uma nova ordem administrativa. Entre a queda do regime imperial e a promulgação da Constituição de 24 de fevereiro de 1891, o primeiro decreto oficial (15 de novembro de 1889) determinou a destituição das câmaras federais, estaduais e municipais.

No âmbito municipal — foco deste estudo —, o Decreto nº 50-A (de 7 de dezembro de 1889) dissolveu as Câmaras e criou o Conselho de Intendência Municipal. Essa instituição de caráter provisório (executivo e legislativo) atuou até a promulgação das Constituintes estaduais.

O Funcionamento das Intendências Municipais

As Intendências tinham funções bem definidas na política e na administração local:

  • Poder Executivo: Exercido pelo Intendente, responsável pela execução das leis, obras e administração do patrimônio público.
  • Poder Legislativo: Representado pelo Conselho de Intendência (um Presidente e oito Intendentes). Tinha a função de criar orçamentos, contratar empréstimos, legislar sobre iluminação pública, saneamento, saúde, comércio e criação de escolas.

O Presidente do Conselho substituía o Intendente em seus impedimentos e conduzia os trabalhos legislativos. Na prática, as Intendências instauraram a governança republicana provisória. Com a Constituição Mineira de 15 de junho de 1891, o modelo foi extinto e foram convocadas eleições para prefeitos e vereadores, dando início ao período republicano (dividido em República da Espada, 1889–1894, e República Velha, 1894–1930).

O Ideario Positivista e a Educação

Os fundadores da República, capitaneados pelo Dr. Benjamin Constant Botelho de Magalhães, seguiam a doutrina positivista de Auguste Comte. O objetivo era a cidadania plena alicerçada em três pilares:

  1. Direitos Civis: Liberdade, propriedade e igualdade perante a lei.
  2. Direitos Políticos: Participação governamental e direito ao voto.
  3. Direitos Sociais: Educação, trabalho e saúde (consolidados ao longo do século XX).

Diferente do modelo europeu, o Brasil priorizou os direitos sociais, focando na educação como ferramenta para formar a nova sociedade. Diante do insucesso do governo central nessa missão, a verdadeira batalha pela instrução pública transferiu-se para os estados e municípios.

A Chegada da República em Paracatu (MG)

Localizada no sertão mineiro e distante dos grandes centros (como Rio de Janeiro e São Paulo), Paracatu só recebeu a notícia da Proclamação da República cinco dias após o evento, por meio de Uberaba.

Republicanos históricos e novos aliados políticos comemoraram a mudança pelas ruas. A transição do poder local ocorreu por decreto do governador Cesário Alvim, que nomeou o novo Intendente e os membros do Conselho Provisório.

Figuras Históricas e Intendentes de Paracatu

Segundo o historiador Olímpio Gonzaga, entre janeiro de 1890 e o início de 1892 (quando ocorreram as eleições gerais), Paracatu teve três Intendentes e alguns interinos:

  • 1º Intendente: Major José Gonçalves de Oliveira Vilela (republicano de primeira hora).
  • 2º Intendente: Dr. Pedro Salazar Moscoso da Veiga Pessoa.
  • 3º Intendente: Manoel Monteiro da Motta e Vasconcelos (comerciante português).
  • Intendentes Interinos: Trajano Antônio Roquete Franco, Júlio César de Melo Franco e Dr. Sérgio Gonçalves Ulhoa (médico).
  • Outros membros do Colegiado: Fortunato Jacinto da Silva Botelho, Francisco Antônio Roquete Franco, Manuel Pimentel de Ulhoa, entre outros.
  • Procuradores Nomeados: Félix Pereira da Cunha, Izidoro Lopes de Ulhoa Cintra, Francisco Pereira Mundim, entre outros.

Registros das Atas do Conselho de Intendência (1890–1891)

Apesar de enfrentar limitações orçamentárias e pouca autonomia política, o Conselho de Paracatu deixou registros importantes sobre a rotina da época:

  • Mudança de Logradouros (Ata nº 9 — 29/05/1890): Alteração dos nomes antigos das ruas. Nota histórica: A população protestou veementemente e a resolução não entrou em vigor.
    • Rua de São Domingos > Rua do Cel. Pedro Roquete
  •          Rua das Flores > Rua do Cel. Francisco Carneiro
    • Rua da Abadia > Rua do Dr. Bernardo
    • Largo da Jaqueira > Praça do Cel. Ulhoa
  • Estatística Municipal (Ata nº 12 — 17/07/1890): Criação do cargo de Agente de Estatística para levantamento industrial, comercial e agrícola.
  • Saúde Pública (Ata nº 13 — 17/07/1890): Liberação de verbas ao farmacêutico Alceu Victor Rodrigues para fornecimento de medicamentos aos necessitados.
  • Reconhecimento de Serviços (Ata nº 15 — 24/07/1890): Concessão de gratificação ao secretário Cassiano Gonçalves de Lima.
  • Abastecimento (Ata nº 17 — 03/08/1890): Proibição da exportação de gêneros alimentícios básicos (arroz, feijão, farinha) devido à inflação local, sob pena de multa.
  • Crise Financeira (Ata nº 29 — 03/01/1891): Solicitação ao Governador de verba complementar (700 mil réis) para manutenção da iluminação pública.

Educação e Vida Cultural no Período de Transição

Mesmo em meio às dificuldades financeiras, Paracatu teve avanços educacionais e culturais significativos:

Instrução Pública

Em 1880, foi criada a Escola Normal por professores como Eduardo Pimentel, Franklin Botelho, Maximiano Rodrigues Barbosa, Cristino Pimentel de Ulhoa e Clarindo de Melo Franco.

Com a primeira legislatura da Câmara (março de 1892), sob a presidência do Dr. Pedro Salazar, instalou-se a Comissão de Saúde e Instrução Pública. Em resposta às reivindicações populares via abaixo-assinado, a legislação educacional passou a permitir a matrícula de alunos até os 17 anos e exigiu concurso público para a admissão de professores.

O Teatro Fhilodramático

A vida cultural ganhou forte impulso com a construção do Teatro Fhilodramático, financiado pelo comerciante e filantropo português Antônio Machado de Freitas (natural de Vale de Bouro, Celorico de Basto, Braga).

  • Inauguração: 1º de janeiro de 1890, com a peça A Estátua da Carne.
  • Destaques: Atuação da atriz Isaura Simões da Cunha e encenação da opereta A Rainha dos Sonhos (de autoria do Dr. Pedro Salazar) em dezembro de 1889.
  • Legado: O espaço fomentou a criação de grupos como o Clube Dramático Talia e o Clube Dramático Juventude. Antônio Machado de Freitas faleceu em 6 de agosto de 1898.

Fontes Documentais

  1. Documentos relativos à Intendência de Paracatu — Arquivo Municipal Olímpio Michael Gonzaga.
  2. Decreto nº 50-A / Primeiro Decreto do Governo Provisório da República.
  3. Constituição do Estado de Minas Gerais de 1891.


Comentários

Postagens mais visitadas

GUARDA-MOR JOSÉ RODRIGUES FRÓES

Por José Aluísio Botelho             INTRODUÇÃO  Esse vulto que tamanho destaque merece na história de Paracatu e de  Minas Gerais , ainda precisa ser mais bem estudado. O que se sabe é que habilitou de genere em 1747 (o processo de Aplicação Sacerdotal se encontra arquivado na Arquidiocese de São Paulo ), quando ainda era morador nas Minas do Paracatu, e embora fosse comum aos padres de seu tempo, aprece que não deixou descendentes*. Que ele foi o descobridor das minas do córrego Rico e fundador do primitivo arraial de São Luiz e Santana das Minas do Paracatu , não resta nenhuma dúvida. De suas narrativas deduz-se também, que decepcionado com a produtividade das datas minerais que ele escolheu, por direito, para explorar, abandonou sua criatura e acompanhou os irmãos Caldeira Brandt , que tinham assumido através de arrematação o 3º contrato de diamantes, rumo ao distrito diamantino . Documento de prova GENEALOGIA  Fróis/F...

ÍNDICE DA SÉRIE 1811 - VILA DE PARACATU DO PRÍNCIPE

Por José Aluísio Botelho Índice da Série: Os Antigos Moradores de Paracatu – Arruamento Completo de 1811 Bem-vindo(a) à série completa do Arruamento da Vila de Paracatu do Príncipe , transcrito diretamente do documento original de 1º de abril de 1811 , preservado no Arquivo Público Municipal de Paracatu. Aqui você encontra todas as ruas, largos, becos, travessas, chácaras e arraiais da vila com os nomes dos moradores, proprietários e valores dos imóveis da época. São mais de 400 registros que ajudam a reconstruir a Paracatu colonial. Você, caro leitor, certamente irá encontrar seus antepassados que lá viveram há duzentos anos. Clique nos títulos abaixo para acessar cada página: Post 1 -  Os Antigos Moradores de Paracatu: Arruamento Completo das Ruas em 1811: RUA DIREITA (Série - Post 1) A rua principal da vila colonial e sua lista completa de moradores. Post 2 –  Os Antigos Moradores de Paracatu: Arruamento Completo das Ruas em 1811: RUA DAS FLORES (Série – Post 2) Origem do ...

REIS CALÇADO - UMA FAMÍLIA JUDIA NA PARACATU DO SÉCULO XVIII

Por José Aluísio Botelho  Eduardo Rocha Mauro Cézar da Silv a Neiva   Família miscigenada, de origem cristã nova pela linha agnata originária do Ceará . Pois  bem, para o arraial de São Luiz e Santana das Minas do Paracatu provieram  os irmãos Alexandre José dos Reis Calçado e Antônio Rodrigues dos Reis Calçado, naturais da freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Acaracu (atual Acaraú), termo de Aracati, Ceará, filhos naturais do capitão Gaspar Rodrigues dos Reis Calçado, natural do Recife, capitania de Pernambuco, e de Luzia Maria da Rocha, mulher solteira, escrava que foi do mesmo capitão Gaspar dos Reis Calçado , natural da freguesia de Acaracu (Acaraú); Alexandre José, objeto de nosso estudo, nascido em 1764, casou por volta de 178 5 , com Luzia Rodrigues de Oliveira, natural do arraial de Paracatu, falecida em 04/07/1837, filha de Antônio Rodrigues de Oliveira e de Ana Rodrigues de Araújo. Viveu do lucro de suas fazendas, notadamente da loca...

DONA BEJA E OS BOTELHOS DE PARACATU

 POR JOSÉ ALUÍSIO BOTELHO Dona Beja e os Botelhos de Paracatu Muito se tem falado, no âmbito familiar e fora dele, acerca do possível parentesco consanguíneo ou por afinidade entre Dona Beja e a família Botelho de Paracatu, ao longo de décadas. Essa dúvida, real ou propositalmente trazida pelos mais velhos — receosos da veracidade do parentesco com a mitológica personagem da história de Araxá, e que levou um dos nossos velhos tios, já falecido, a dizer peremptoriamente certa vez: “Eu não sou parente de uma cortesã” —, persiste até os dias atuais. Ana Jacinta de São José, a mitológica Dona Beja, nasceu em Formiga, Minas Gerais, por volta de 1800, filha natural de Maria Bernarda dos Santos e de pai ignorado. Chegou ao então florescente julgado de São Domingos do Araxá ainda menina, acompanhando a mãe e o irmão Francisco Antônio Rodrigues, talvez à procura de melhores condições de vida, já em princípios do século XIX. Segundo alguns historiadores, ela tornou-se uma mulher bonita, de ...

NOTAS GENEALÓGICAS - PEREIRA MUNDIM

Por José Aluísio Botelho Eduardo Rocha Família originária de Mondim de Bastos, Vila Real, norte de Portugal, representada nas Minas do Paracatu por Antônio Lourenço Mundim (vide imagem), que obteve sesmaria no ano de 1748 às margens do Ribeirão São Pedro. 1- Joaquim Lourenço Mundim, casado com Perpetua Leocádia Pereira de Barros, filha legítima do capitão José Pereira de Barros, natural da cidade de Braga, Portugal e de Maria Antunes Claro; neta paterna de Manoel Antônio Pereira de Barros e de Antônia da Costa. Família miscigenada na origem em Paracatu. Filhos descobertos: 1-1 Mathias Lourenço Mundim, falecido em 08/12/1834; casado com Lúcia de Sousa Dias. Inventário: 2ª Vara 1835/1836. Filhos: 1-1-1 Maria Cândida de Sousa Mundim, 7 anos em 1834; viveu em concubinato com o Dr. Bernardo de Melo Franco. Deixou filhos naturais reconhecidos pelo pai em testamento (vide Melo Franco). 1-1-2 Elias de Sousa Mundim, nascido em 1829 e falecido em 26/09/1879; casado duas veze...

DONA BEJA E AS DUAS MORTES DE MANOEL FERNANDES DE SAMPAIO

Por José Aluísio Botelho A história que contaremos é baseada em fatos, extraídos de um documento oficial relativo a um processo criminal que trata de um assassinato ocorrido na vila de Araxá em 1836. O crime repercutiu no parlamento do império no Rio de Janeiro, provocando debates acalorados entre os opositores do deputado e ex-ministro da justiça, cunhado do acusado, como se verá adiante. Muitos podem perguntar porque um blog especializado em genealogia paracatuense, está a publicar uma crônica fora do contexto? A publicação deste texto no blog se dá por dois motivos relevantes: primeiro, pela importância do documento, ora localizado, para a história de Araxá como contraponto a uma colossal obra de ficção sobre a personagem e o mito Dona Beja, que ultrapassou suas fronteiras se tornando de conhecimento nacional. Em segundo lugar, porque um dos protagonistas de toda a trama na vida real era natural de Paracatu, e, portanto, de interesse para a genealogia paracatuense, membr...