Por José Aluísio Botelho
O Vigário Francisco José da Silva e o Mito de Dona Beja
Liberal em Araxá, apoiou seus sobrinhos liberais, liderados pelo coronel Fortunato José da Silva Botelho, no embate político que se travava em Minas nos anos de 1842, tendo participado, mesmo que discretamente, da Revolução Liberal.
O vigário Francisco José da Silva foi um padre típico do sertão mineiro: fazendeiro abastado, político influente e mulherengo, como quase todos os padres de seu tempo. Teve participação decisiva na evolução político-administrativa e social de Araxá na época em que lá viveu, entre 1815 e 1845, ano de seu falecimento.
Liberal em Araxá, apoiou seus sobrinhos liberais, liderados pelo coronel Fortunato José da Silva Botelho, no embate político que se travava em Minas nos anos de 1842, tendo participado, mesmo que discretamente, da Revolução Liberal.
Testamento e Perfilhamento dos Filhos
Antes, em dezembro de 1826, o vigário ditou seu testamento, escrito pelo advogado paracatuense João de Pina e Vasconcelos, onde declarou não ter herdeiros descendentes ou ascendentes por serem falecidos seus pais. Nomeou como seus herdeiros:
Antonio Machado de Morais, cabeça de casal da herdeira Placidina Maria de Jesus;
Pedro Amado de São Paulo;
Teresa Thomásia de Jesus (filha natural havia com Ana Jacinta de São José, Dona Beja).
Cada um deles foi aquinhoado com a terça parte dos bens, sendo que a Teresa Thomásia caberia a Fazenda Campo Aberto, com todo o gado vacum e cavalar. Os dois últimos nomeados eram, na verdade, seus filhos, e o primeiro era seu sobrinho e genro (marido de Placidina). Esses fatos foram omitidos no testamento certamente para evitar problemas com a Igreja, mesmo após sua morte.
Anos depois, em 1831, o vigário legitimou em cartório três filhos: Pedro Amado de São Paulo, Placidina Maria de Jesus e Teresa Thomásia de Jesus. Talvez por pressões dos próprios filhos, tudo viria à tona com o processo de perfilhamento dos mesmos.
A Dívida com Ana Jacinta de São José
Ele declara ainda em seu testamento ser credor de Ana Jacinta de São José por uma dívida de quinhentos mil réis, relativa a "serviços prestados" em sua casa de morada pela dita credora. Essa dívida deveria ser dissociada de seus bens e paga pelo testamenteiro em dinheiro após sua morte. Em nenhum momento o apelido "Beja" ou "Beija" é mencionado no testamento.
Anos mais tarde, em um recibo datado de 1854 e anexado ao inventário do padre, ela declara ter recebido a dívida — documento este assinado por seu genro, por ela não saber ler nem escrever.
O inusitado nessa dívida é a época do pagamento: após a morte do devedor. Ora, todo credor quer receber suas dívidas o mais rápido possível. Torna-se claro, à luz do testamento e com a legitimação dos filhos anos depois, que a dívida significava, na verdade, um dote deixado por ele à mãe de sua filha Teresa Thomásia, e que os "serviços prestados" eram, na realidade, relações de concubinato sacrílego mantidas com o padre.
No inventário do padre Francisco, aberto em 1845, as herdeiras são representadas pelos seus respectivos maridos (cabeças de casal) e pelo seu filho Pedro Amado de São Paulo. Em momento algum do inventário é mencionada a maternidade dos filhos, embora anos antes tenha havido a legitimação dos três.
Desconstruindo o Mito
Dona Beja foi, na verdade, uma mulher pobre, analfabeta e mãe solteira, seduzida pelas promessas de um padre mulherengo, engravidando aos 18 anos de idade de sua primeira filha, nascida em 1819. Melhorou de vida com a ajuda financeira do dito padre e talvez de outros amantes, adquirindo bens de morada, sítios e escravos, o que lhe permitiu ter uma vida confortável.
Ela comparece ao censo de 1832 em Araxá, declarando ter 32 anos e ser moradora do Fogo (casa) nº 6, juntamente com a mãe, Maria Bernarda (56 anos), e oito escravos (quatro crianças e quatro adolescentes). Casou suas duas filhas com pessoas de famílias influentes do lugar, convivendo harmonicamente no seio dessas famílias e mantendo relações de amizade com outras famílias não menos importantes da vila — o que reforça sua condição de mulher "normal" entre seus pares.
Não existe nenhuma evidência documental que comprove ter sido ela uma prostituta de luxo ou uma cortesã explorando a prostituição na lendária Chácara do Jatobá, tal como a história oficial de Araxá lhe imputa.
A Construção Comercial do Mito
A criação do mito de Dona Beja teve objetivos meramente mercadológicos, no intuito de explorar as águas termais do Barreiro no alvorecer do século XX, décadas após sua morte. Para desenvolver o turismo em Araxá, utilizaram as condições sociais de uma mulher comum, indefesa e submissa aos apetites sexuais de homens importantes do lugar, mas que levava uma vida normal como todas as outras mulheres de seu tempo. Só isso.
Por fim, para ilustrar, atentem para o que escreveram sobre sua sexualidade:
"A sábia natureza teria aprimorado os dons dessa bela entidade feminina com um equilíbrio fisiológico que se manifesta em seus hirtos e volumosos redondos seios. O potencial de sua genitália manifestava-se na bela cor sempre rósea e sua epiderme clara. Seu Gineceu era 'Vibrátil, Contrátil, Sucçante, Aspirante, Envolvente, Deglutante', em seu Paroxismo Libidinal. O homem embevecido era vencido e jugulado pelo potencial feminino semelhante a uma corrente elétrica de dez mil volts que o deixava exangue e quase desfalecido."
— Sebastião da Affonseca e Silva, historiador*.
*Sebastião Affonseca e Silva foi um dos criadores do mito de Dona Beja e, curiosamente, sócio no primeiro empreendimento turístico do Barreiro.
Nota: O vigário Francisco José da Silva foi tio-avô do coronel Fortunato Jacinto da Silva Botelho, de Paracatu.
Fontes:
Cópia do inventário/testamento do padre Francisco José da Silva – original arquivado na Fundação Cultural Calmon Barreto, Araxá, Minas Gerais;
Dona Beja: Desvendando o Mito, de Rosa Maria Spinoso de Montandon (Editora EDUFU/UFU, 2004).
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